Opinião – O sem sentido da nossa vida financeira

Posted by

Aires Antunes Diniz

Temos sido confrontados com o alarido criado pelos defensores da bondade da governação do pretérito governo, coisa complicada que nos procura convencer de que este não tem culpa alguma no desmoronar do BES que tudo sabia, do BANIF de que ninguém desconfiava o fiasco ou da Caixa Geral de Depósitos que todos pensavam ser mais sólida que qualquer Titanic. Todos ficámos pasmados com tanto naufrágio depois de nos terem convencido de que houve uma saída limpa da Troika. Estamos por isso imersos numa era de pós-verdade, da qual parece não nos querem deixar sair.
Perante esta epidemia de males financeiros, tudo nos faz pensar que tudo nos calhou como aconteceu em 1899 a propósito da peste bubónica que “Efetivamente em Portugal não há ninguém que pudesse dar cientificamente uma opinião correta a tal respeito. É tal a falta que para compor a comissão investigadora foi preciso chamar um parteiro; o que vale é ter-se ocupado toda a vida da patologia e higiene exótica, até quando votou em 1884 para que não fosse enviado a Espanha estudar a cólera o único professor da Faculdade que então se ocupava da bacteriologia e acreditava nela.” 1.
Agora ninguém acredita nos senhores donos da verdade como Dona Teodora Cardoso, que só nos aconselha os caminhos para o nosso mal, nem nos homens da troika, nem no governador do Banco de Portugal, nem no Paulo Núncio emaranhado que está nas várias verdades que tem debitado. Muito menos acreditamos no senhor Pedro Passos Coelho, nem no homem das quintas-feiras, não falando já da Maria Luís Albuquerque e Assunção Cristas que agora ensaia com algum êxito uma nova farpela.
De facto, têm enfiada estes senhores uma Túnica de Nesso, bem descrita por Adriano Antero em 1923, mas como sabem pouco de mitologia grega nem disso se apercebem. Nem sequer veem necessidade de reconhecer que erraram e que mais valia reconhecerem os males que causaram, contribuindo assim para os erradicar.
Entretanto, o caso Marquês tem cada vez mais arguidos e no lote destes vemos os senhores de “altíssima competência” que enfiaram o dinheiro da PT na Rio Forte.
Havia até há pouco gente que censurava os investidores no papel comercial reinventado por Ricardo Espírito Santo Salgado, dizendo que tinham caído na esparrela por contarem tontamente com ovos de ouro, mas disso não podemos acusar Granadeiro nem Bava. Sabiam bem o que estavam a fazer. Assim, como o BPI, que de facto tudo sabia, e não avisou os portugueses, omitindo “criminosamente” o seu dever de auxílio ou seja de avisar a muito incauta malta do perigo que corriam.
Estamos assim num emaranhado de inverdades, de que só nos libertaremos quando deixarmos de acreditar nas mentiras que não nos deixam ser felizes.

1 Coimbra Médica (Revista Quinzenal de Medicina e Cirurgia), 19º ano, n.º 25, 1 de Setembro de 1899, p. 400.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*