Opinião – Candidatura à Câmara (II)

Posted by

 

Percorrida toda a cidade, ouvidas e escutadas todas as opiniões, ia aos concelhos de Cantanhede e Mira, onde, creio, há poucos desempregados, embora a agricultura não tenha a pujança de outros tempos, mas ainda vai havendo alguma coisa…
Nestes dois concelhos, as aldeias não estão desabitadas. Por exemplo, no concelho de Mira, Praia de Mira, há uma fábrica que deve visitar; absorve praticamente toda a mão-de-obra disponível da aldeia. Há, no entanto, um exemplo negativo: o Estado concedeu regalias a uma empresa estrangeira de aquacultura. Nunca chegou a dar emprego a tantos e agora está em agonia. Ao contrário, ao cidadão gerador de emprego daquela aldeia, só têm criado dificuldades na construção de uma nova fábrica em Cantanhede. As dificuldades são do financiamento. Acordado e agora duvidoso.
Estava a escrever o até aqui escrito, quando me telefona um colega da república, quase da minha idade, engenheiro-civil, doutorado em Houston, a dizer-me que tinha chegado de Angola, vinha no comboio intercidades e que gostava de me rever em Coimbra.
Apanho o autocarro e vou até à Estação Velha. Reconhecê-lo foi um milagre. Apanhámos o comboio para a Estação Nova, para ir observando: o Choupal, o encanto do Mondego com as comportas, … Não sei se foi que me tenha ocorrido à minha mente, se foi Ele que disse
– Mostra-me o roim (o ruim ou mau) porque o bom vejo eu! Esta é que é a estação de Coimbra? Que tristeza…
– Tem pelo menos bons estacionamentos…
Inicia-se a viagem. Olha para a colina, à direita do Mondego e pergunta:
– Ali não era uma fábrica de têxteis?
– Era. Agora é o Fórum, um centro comercial.
Resposta pronta dele:
– Que coisa tão inestética.
– E não é tudo! É que com esses centros comerciais, desapareceu a vida na Baixa da Cidade. E não só…
Alguns metros depois, olha para a esquerda e a fábrica de confecções têxteis “Milene”, não só está em ruínas, como tem tijolos a emparedar as janelas. Ele pergunta:
– Emprego para toda esta gente?
– Desempregados…
Já a aproximarmo-nos da Estação Nova, olha para a direita, mal se vê o Convento de São Francisco, mas vê-se bem o que lhe foi acrescentado. Ele:
– Que coisa tão feia!
– Já não se vê a chaminé – que era a mais alta da Europa – e se o visitares, onde era a fábrica de lãs dos Planas, não é um museu, nem uma escola profissional, o que permitiria conservar o original, mas é um centro de congressos e de espetáculos. Se fora um museu demonstrativo de que até 1954 todas as máquinas tinham sido feitas em Coimbra ou na Covilhã (que foram para Manchester), seria mais motivo de atracção turística e mostruário da nossa indústria. Esta fábrica produzia os melhores lanifícios do mundo.
– Que foi feito aos operários?
– Desempregados.
À saída da Estação Nova, olha para a colina da Universidade. Ele:
– Lá está a Torre da Universidade, a Universidade de que tenho tantas saudades… Mas salvo a torre, parece-me que já deveria ter sido caiada há muito tempo…
– Tens razão, parece uma antiguidade como a Universidade.
Descemos os degraus da Estação Nova, vê-se logo o Hotel Mondego que está encerrado; à frente, ao lado, o Hotel Bragança. Um edifício quase tão grande como Hotel Bragança que está com portas e janelas emparedadas. Apenas um “Ah!” de surpresa, e terá pensado “O que irei ver mais?”.
Ao virarmos para a Fernão de Magalhães, fica à frente um edifício onde, noutros tempos, ficava uma delegação do jornal a República. Pergunta:
– E então o jornal a República?
– Foi encerrado pelos revolucionários – ele que era um dos símbolos anti-fascistas.
O partido socialista convocou uma greve contra essa prepotência. Dos socialistas, lembro-me apenas de dois: professora do liceu Margarida Ramos de Carvalho, e o radiologista Guilherme Tralhão. Todos os outros era eu mais os meus amigos.
– Não olhes muito para a esquerda dada a degradação de muito do que lá se encontra.
Entramos na Rua da Sofia, está melhor apresentada, porque foi considerada pela UNESCO, juntamente com a Universidade, Património Imaterial da Humanidade. A Câmara Municipal ainda vai estando uma pimpona e tem as bandeiras da cidade, de Portugal e da União Europeia. Mas a caminho da Sá da Bandeira, vê-se logo à direita o Jardim da Manga, que bem precisava de uma lavagem. Seguem-se logo os correios, desertos.
– Perdão, serve de hotel aos ratos, ratazanas e baratas.
À esquerda, a Escola Jaime Cortesão, a deteriorar-se.
Entra-se na Sá da Bandeira, vê-se o Mercado D. Pedro V, e à esquerda e à direita até ao Jardim da Sereia, prédios em degradação e quase todos a precisarem de reparação.
– E onde era o cinema Avenida?
– Um centro comercial…
– Que pena, era um edifício tão bonito.
A vistoria à cidade continuará, oxalá que o meu amigo não se arrependa, cuja conversa final tivemos na Avenida Dias da Silva, nas escadas do Instituto Geofísico, à entrada do portão principal.
Senhor Candidato a Presidente, vá pensando como solucionar estes problemas e em quem o ajudar nesse empreendimento.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.