Opinião: Suicídio Científico

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Aires Antunes Diniz

Desde sempre assistimos a psicopatias, que destroem continuadamente a nossa capacidade científica. Isso é denunciado em 1886 por Maximiano Lemos num livro que possuo, em que afirma: “Não ficou n’ isto a questão. O prof. Lourenço de Almeida Azevedo, a cujo suicídio científico, temos assistido nos últimos tempos, batido naquele terreno, assacou ao digníssimo administrador dos hospitais da Universidade, diferentes acusações relativas à maneira como têm sido concebidas e executadas as obras daqueles hospitais.”[1] Também há cerca de dois anos descobri que este Professor da Universidade tinha obrigado o arranque da vinha experimental no Jardim Botânico de Coimbra. Era com ela que o Reitor Visconde de Vila Maior e o Professor Júlio Henriques estudavam as diversas castas e tentavam, ainda, estudar a forma como a filoxera se propagava.

Tanto num caso como noutro provocou infelicidade pessoal e coletiva, impedindo tanto o livre desenvolvimento da ciência como o da medicina que Maximiano Lemos tentava registar. E quando eu procurava o anuário de um outro ano, que devia existir na Biblioteca Municipal de Coimbra, este não se encontrava no lugar. Para me consolar a funcionária disse que devia estar em mãos que o estimavam mais. Trata-se de um consolo que as bibliotecárias repetem de norte a sul do país. Mas, pode ser irrealista pois não conheço trabalhos que citem este livro desaparecido. E para colmatar esta falha procuro agora na Internet onde possam estar exemplares, ainda não feitos desaparecer por gente ignorante, e com vontade de apagar este raro rasto de inteligência. De facto, Ricardo Almeida Jorge no seu prólogo a este trabalho arrasa a falsa e mísera ciência coimbrã, quase gritando “Delenda esta Conimbrica!”. Claro que o humilde povo trabalhador de Coimbra não tem culpa dos desmandos dos que não deixa florir ciência aqui e em Portugal! E que muito nos falta para nos defendermos dos que espalham cemitérios nucleares junto à fronteira.

De facto, no caso do cemitério nuclear de Almaraz, quando o governo decidiu entregar a análise do impacto ambiental desta aos vizinhos espanhóis, ficou claro o contrassenso da Extinção da Junta de Energia Nuclear em 1979. Foi o que aconteceu logo e quando estavam a ocorrer desastres ecológicos como Three Mile Island, tornando-nos reféns do poder científico de outros países, que podem interessar-se ou não pelo nosso bem-estar. E como diz a sabedoria popular quem quer vai e quem não quer manda. Ou seja quem sabe decide e quem não sabe sujeita-se a quem sabe ou a quem faz ver que sabe. E isso é muito perigoso.

[1] Maximiano Lemos Júnior – Anuário dos Progressos da Medicina em Portugal com um prólogo de Ricardo de Almeida Jorge, professor da Escola Médico-Cirúrgica do Porto, 3º ano, 1885, Lemos & Cª, Porto, 1886, p. 157. 

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