Opinião – O rebanho

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Santana-Maia Leonardo

Santana-Maia Leonardo

Raquel Vaz-Pinto, autora do livro “Para lá do relvado”, na sua entrevista ao jornal A Bola de 18 de Junho, confessa que não fala no livro sobre Portugal porque vive “o Benfica com grande intensidade” (“Sou uma adepta fanática”), apesar de reconhecer, como eu já aqui escrevi, que, nos anos da ditadura, Salazar também instrumentalizou o Benfica.

Mas vejamos o que disse sobre a Itália fascista e sobre a Espanha franquista, para podermos fazer a extrapolação para o nosso país, uma vez que a ideologia e a metodologia eram as mesmas em Roma, Madrid e Lisboa: “Na Itália fascista, Mussolini foi o primeiro líder político que compreendeu a capacidade de instrumentalização do futebol como espectáculo de massas.

É uma das primeiras grandes ligações, explícitas, entre política e futebol. Com a selecção venceu dois mundiais, mas do ponto de vista interno não lhe correu bem, porque tentou reorganizar as equipas romanas, fundando a Roma e dando à Lázio uma identidade fascista. (…)”.

Por sua vez, na Espanha franquista, “havia um apoio explícito de Franco ao Real Madrid. O mítico presidente do Real Madrid, Santiago Bernabéu, era um soldado franquista que participou, aliás, no cerco a Barcelona no final da guerra civil. (…)”

Ou seja, Salazar conseguiu, sem qualquer esforço, aquilo que Mussolini e Franco não conseguiram, apesar de todo o seu empenho e dedicação: que Itália e Espanha ajoelhassem perante Roma e Madrid. Com efeito, apesar dos esforços de Mussolini, as duas equipas romanas nunca conseguiram suplantar as equipas do norte de Itália, assim como as gentes de Barcelona nunca prestaram vassalagem a Madrid, apesar do poderio e do sucesso internacional do Real.

Em Portugal, no entanto, bastou o sucesso do Sporting nos anos cinquenta e do Benfica nos anos sessenta para o país inteiro, Porto inclusive, se converter a Lisboa sem que o pastor precisasse sequer de levantar o cajado. E isto diz muito sobre a inata vocação de ovelha do povo lusitano.

Miguel Sousa Tavares disse, em A Bola, uma coisa óbvia para qualquer pessoa que não seja portuguesa: “nunca hei-de perceber que estranha perturbação de personalidade leva uma pessoa do Porto a ser benfiquista.” Na verdade, sendo o Porto, naturalmente, a grande cidade opositora de Lisboa, custa a perceber o que leva alguém do Porto a ser benfiquista ou sportinguista. Mas Júlio Machado Vaz, que nasceu e reside no Porto, na sua entrevista ao jornal A Bola do passado 21 de Maio, deu a explicação que só um português entende: “O facto de o Benfica ganhar quase tudo na década de 60 (…) tinha tudo para me atrair.”

Por outras palavras: o português comum é do que ganha e, tal como as ovelhas, segue sempre o rebanho. É, assim, no futebol ( 47% dos adeptos portugueses são do Benfica, enquanto em Inglaterra o Manchester tem 15% dos adeptos e o Real e o Barcelona juntos têm 33%) e é assim na política (até hoje, desde o século XIX, não houve um único governo que tivesse perdido as eleições, após concluir o mandato, para já não falar no que se passa no redil das autarquias).

One Comment

  1. Sócio AAC says:

    Completamente de acordo !

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