Opinião – As eleições como ameaça

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MARISA MATIASMarisa Matias

O governo de Portugal e o Presidente da República decidiram esta semana dar um triste espectáculo ao vivo e a cores. Duas demissões de ministros, uma substituição polémica e mais um par de episódios à porta fechada mostram como, se dúvidas houvesse, os interesses que movem quem nos governa nada têm a ver com estabilidade, credibilidade ou interesse nacional. Não nos iludamos, contudo, não é de tolos que estamos a falar, saberão bem quais são as razões que os movem só que decidiram que isso não era do nosso respeito. Ninguém acredita neste absurdo, tem de haver, por isso, razões lógicas para os protagonistas em causa.

No entanto, há no meio de toda esta trapalhada uma questão política de fundo: governo, presidente, troika, instituições europeias, Angela Merkel, Mario Draghi e companhia não querem eleições em Portugal. Este é mais um indicador real de um país que se encontra sob ocupação. Fazem trinta por uma linha, mas pôr a democracia em prática é que nem pensar.

Cada dia que passou foi um dia de um insulto agravado à população portuguesa. Tanta reunião e nada bate certo na hora de prestar contas a quem devem. Veja-se, por exemplo, o caso de Paulo Portas. Demitiu-se teoricamente por causa da nomeação de Maria Luís Albuquerque, mas após umas reuniões com Passos Coelho e sabe-se lá quanta pressão de governos, mercados, banca e troika o que eram razões políticas passaram a ser razões “pessoais”.

Os sacrifícios de tantos – não só os já impostos como os anunciados –, que são bons para o suposto discurso “patriótico” do primeiro ministro, são afinal em vão. Em dois dias, a irresponsabilidade total e absoluta fez o país perder milhares de milhões de euros no jogo dos mercados que tem sido apoiado até à exaustão pelo governo. Não se pode prever outra coisa deste lado Senão a promessa anunciada da, pelo menos, duplicação dos mesmos. Que lata é preciso ter: já não bastava um país vendido aos mercados financeiros, tem ainda agora de pagar a incompetência e as brincadeiras de poder patéticas e nada sérias dos seus governantes.

Já sabíamos, mas ficou ainda mais claro. O governo de Portugal não governa para Portugal, mas para um projecto de sociedade que estão a pôr em prática. Esse projecto jamais seria votado favoravelmente pelos portugueses se dele tivessem conhecimento. E é precisamente por saberem o que fizeram que não querem eleições. Mas, apesar de já termos percebido que não temos Presidente, ainda nos resta a República e nessa a última palavra só pode ser a dos cidadãos e das cidadãs.

One Comment

  1. João de Frias says:

    Parece uma interpretação lógica. É um taciocínio fácil mas pouco realista. A globalização existe e acentua-se. É uma realidade que nem o capital, nem o proletariado, consegue controlar ou evitar, é demograficamente democrático mas arriscado, é imprevisível e imparável, para o bem e para o mal, como tudo na vida. Paulo Portas terá aprendido. Resta saber se a oposição aprendeu!

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