Opinião – Sobre um muito bom professor, sobre um muito mau banqueiro (I)

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JULIO MARQUESJúlio Marques Mota

Caro Dr. Vitor Constâncio, um artigo de jornal Público chama-me a atenção para a sua conferência em Atenas, precisamente, e para falar da crise do euro no país que é dele a sua maior vítima. Ironia da História, direi. Ao traduzi-la e, já a meio fico estarrecido com o que leio quando nos diz numa forma lapidar e fria como o gelo polar que se pode resumir numa curta expressão sua: “Não obstante isto, não é agora o momento de mudar de rumo, pois até se poderia destruir tudo o que já se conseguiu.”

Como se seja pacífico o trajecto da Europa que tem sido assumido nestes últimos anos. Para si, pelos vistos, é assim mesmo, é o caminho da inevitabilidade dos milhões de desempregos que entretanto na Europa se criaram, como um caminho necessário, então. E nada a fazer, nada a mudar, para já, até porque pode estragar o que foi alcançado em termos de redução dos desequilíbrios macroeconómicos.

Ao reler esta sua posição, passam-me pela cabeça velhas lembranças a seu respeito. A primeira quando o conheci numa sala do ISEG, a sala 22 transformada em sala dos professores, quando esta deveria como nome uma referência à brutal agressão de que a Universidade foi vítima pela mão de Gonçalves Rapazote. Nessa reunião já estávamos em 1974, um jovem assistente acreditava ingenuamente nas reformas do ensino feitas sob a pressão da Revolução entretanto criada e esse jovem assistente era eu. Sob pressão dos acontecimentos e de uma certa anarquia criada, os estudantes criaram um “ensino de transição” transformando as cadeiras (as unidades curriculares como agora se diz), em módulos, em ensino livre. Eu e mais alguns ingénuos como eu, cujos nomes me dispenso aqui de citar, acreditávamos que o ensino não deveria cair na rua, deveríamos agarrá-lo e dar-lhe o máximo de sentido possível.

Pela parte que me toca coube-me ensinar um módulo sobre Marx, a teoria do valor e o comércio internacional. Para este módulo eu exigia explicar o que era a transformação de valores em preços em Marx e que pudesse explicar igualmente as aberturas criadas pela via dos neo-ricardianos como forma de sair do universo asfixiante da teoria do valor de Marx. A única pessoa que me defendeu nesta matéria foi o senhor, porque para além de dois docentes em História do Pensamento económico que não estavam presentes, Mateus e Martins, ninguém mais sabia do que nós estávamos a falar. Quanto à reforma do ensino dessa revolução a vítima ia sendo eu que me recusei a dar notas de mão no ar. Nas revoluções é sempre assim, aprendi eu depois.

O tempo passou. Do ponto de vista académico, só muito mais tarde nos encontrámos e agora na FEUC, em Coimbra. E teve a sua graça. Tínhamos iniciado um mestrado. Eu leccionava uma disciplina. Macroeconomia da Economia Aberta, a contra gosto de muita gente por muitas razões, uma das quais a de não ser eu doutorado. Nessa função orientei no primeiro ano a licenciada Margarida Antunes na elaboração da tese de Mestrado sob o tema: Coordenação internacional de políticas macroeconómicas: algumas questões.

Convidámo-lo a si para arguente, o que aceitou e era um tempo em que ainda usava cachimbo, creio eu. Era a primeira tese de economia que eu orientei, era também a primeira tese verdadeiramente de economia que ali se apresentava. E tanto era assim que a sala 33 da nossa Faculdade estava cheia. A arguição ultrapassou de longe o que se poderia esperar para uma tese de mestrado, e possivelmente até para uma arguição de uma tese de doutoramento média-alta. A arguição foi também em si-mesma uma grande conferência sua, uma conferência em que ilustrou bem as razões pelas quais era muito crítico face a Maastricht. Foi brilhante, devo dizê-lo. A orientada não se saiu mal da história, excepto face à sua teimosia de que a expressão da função de K. Hamada, penso eu pois estou a escrever de memória, estaria errada, mas nem o senhor sabia bem onde estava errada e eu também não. A sua concentração era tanta na arguição e, depois, no desencadear de uma conversa à volta de algumas das respostas obtidas, que nós nos íamos esquecendo da candidata e de indicar a classificação. Foi preciso o nosso amigo comum Romero Magalhães chamar a atenção para o tempo que se escoava e de que dezenas de pessoas esperavam pelo resultado da defesa da tese.

Fomos depois almoçar ao restaurante das piscinas. Desde então até agora muito se falou de si, desde os ataques que supostamente lhe eram dirigidos pela Maçonaria por supostamente pertencer à Opus Dei, desde a sua posição de afrontamento a Mário Soares, até à sua chegada a Secretário Geral do PS, até à sua posição como Governador do Banco de Portugal na primeira década deste século. Nada haveria a dizer, salvo o enorme ordenado auferido quando muitas vezes pregava a contenção salarial se não houvesse a crise económica, financeira e política que avassala desde 2008 toda a Europa.

 

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