Opinião – O primeiro beijo

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PAULO ALMEIDAPaulo Almeida

Na semana passada avancei para uma escolha cinematográfica arriscada: “Antes da Meia-Noite” é o terceiro de uma série de filmes onde abundam sentimentos que podem questionar as nossas decepções e ao mesmo tempo elevar-nos a uma crença existencial.

Quem em 1995 viu “Antes do Amanhecer”, lembra-se de voltar (ou começar) a acreditar no amor à primeira vista. Há aqueles primeiros beijos na rua à chuva, no meio de um rio, sozinhos no quarto, junto a um projector de cinema, à porta de casa ou a baloiçar num navio. E depois há os beijos corolário de um momento em que nos apaixonamos à primeira vista. A surpresa do amor é inexcedível e faz-nos acreditar que tudo é possível. Aquele beijo ao pôr-do-sol, na roda gigante com vista para uma Viena deslumbrante, tornou até controvertida a altitude do Monte Everest.

Ao mesmo tempo, também nos deixou a dúvida se aquele tipo de arrebatamento, se aquela perfeita união conseguiria perdurar no tempo. A resposta à pergunta se existe ou não verdadeiro amor, isto é, se aquela escolha que o par amoroso do primeiro filme fez foi mais aparente do que livre, também não ficou bem resolvida na sequela parisiense “Antes do Anoitecer” ( 2004 ). Apesar de decorridos 9 anos, houve faísca imediata e, no final, os crentes ficaram em suspenso com a (in)decisão de Ethan Hawke: ficaria ele com o seu reencontrado amor Julie Delpy ou regressaria aos EUA para junto do filho e da mulher com quem entretanto tinha casado? A resposta veio em 2013, numa Grécia em crise, tal como a vida do casal, agora com 2 filhas (mais o filho do anterior casamento). Na casa dos 40, os protagonistas só não estão cansados das vidas que não viveram. A única semelhança com os filmes anteriores consiste nas conversas sem fim entre os dois membros do casal, desta vez a queixarem-se um do outro, cada um deles munido de uma ementa infindável de problemas.

Estive para sair no intervalo da sessão. É que não foi preciso muito tempo de filme para atestar que Jesse e Celine se tornaram adultos e não pretendem repetir diária e eternamente Viena ou Paris. Anotei com cuidado que duas personagens que um dia nos deixaram apaixonados encontram-se hoje vivas e, apesar de tudo, recomendam-se. Sim, é importante que tenham sobrevivido juntos estes anos todos. Eles, tal como os afortunados de entre nós, não perderam a possibilidade de relembrar aquele amanhecer ou pôr-do-sol que um dia os uniu de forma tão perfeita. Foi a beleza desses momentos que permitiu que hoje (e nas próximas décadas) se aturem. Quem um dia perguntou “Did my heart love till now? forswear it, sight! For I ne’er saw true beauty till this night” pode hoje cantar, como Rui Veloso, “muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa”.

 

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