Opinião – Nem Fátima escapa

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AIRES ANTUNES DINISAires Diniz

Falam-me os jornais de Santarém da quebra de vendas que acontece também em Fátima, trazendo sobressaltados os povos da região, que esperam ansiosos o Centenário das Aparições de Fátima, que julgam poder ser a sua tábua de salvação. Nada de acreditar quando um governo nos lança sucessivos ataques aos bolsos, trazendo só para o seu lado uns jornalistas que sadicamente anunciam mais cortes nas despesas da saúde e da educação. Coisa estranha e bárbara que me inquieta quando acontecem casos como o da Ana Leal, jornalista censurada para que nada conste de um certo tema. E acreditamos que outros casos aconteçam por aí nesta Democracia, em que a censura acontece de forma confusa para que não saibamos novas do país que amamos.

Nada se parece com um tempo antigo, Junho de 1969, quando Raul Rego escreve: “Lição grande recebi em Coimbra, quando íamos para Viseu. O ambiente na Associação Académica era admirável de solidariedade. Gente viva, consciente, dispostos a encarar a realidade de frente, esses estudantes enchiam os pátios, as salas, e nos guiaram na visita à grande exposição feita sobre os acontecimentos que levaram à greve universitária mais demorada da história escolar portuguesa”. 1

Era esse um tempo de censura não tão insidiosa como a que acontece agora em que os partidos do arco do poder nos reduzem a uma única alternativa, a da troika que é também a deles. Tudo se reduz a uma gestão de carga fiscal em tudo e principalmente no IVA da restauração e redução da burocracia que se remetem a tão estreita esperança que nunca mais saem da crise. Nem sequer se prevê hora de retoma da economia. Nem uma qualquer alternativa ao memorando da troika, que nos emperra a economia como se fosse a nossa única forma de viver e já agora de morrer.

Mas, bem no nosso imo, sabemos que não é nada assim.

De facto, como conta Raul Rego, as meninas de Santa Comba Dão ou de Castanheira de Pera, não têm só como destino casar com o mais chato dos seus apaixonados ou ficar solteiras, mas sim escolher alternativa entre os vinte rapazes da terra ou ir para uma cidade onde encontram muitas alternativas. E agora até podem ir ao Badoo ou Twoo e assediar alguns dos rapazes que se dispuseram a deixar lá uma foto e algumas informações necessárias para que tal aconteça.

Como nos propõe Noam Chomsky em Occupy, rapazes e raparigas de várias idades, podem simplesmente estudar alternativas, elencar medidas sociais, de economia e de finanças e dizer claramente a quem lhes quer o voto o que querem.

Assim se acabaria rapidamente com este jogo de enganos em que se transformou a política nacional e …europeia, onde tudo se põe como alternativa entre emigrar ou passar fome porque trabalho não há.

Mas, quando um homem se põe a pensar, há sempre alternativa. Pensemos portanto…

 

1 Raul Rego – Diário Político, Edição de Autor,

Lisboa, 1969, p. 19.

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