Opinião – Inclinações poéticas

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J. PEDROSO DE LIMA

J.J. Pedroso de Lima

As características mais notáveis daquele casal, eram, talvez, as diferenças. Ela, Maria, elegante, desportista, dinâmica, resposta rápida, professora de Educação Física. Ele, José, intelectual, desajeitado, pouco falador, com inclinações poéticas, bibliotecário de profissão.

Tudo corria bem com o casal, ou melhor, ele tentava correr o melhor possível… atrás dela. Fazia-o sem grande elegância, diga-se de passagem. Tornava-se pateticamente conivente com ela, em qualquer assunto, numa partilha que pensava que os aproximava.

As desavenças começaram quando Maria frequentou um curso de atualização, numa cidade próxima. O entusiasmo por um dos professores não passou despercebido ao bibliotecário. Neste caso falhou a parceria e o ciúme fez o resto.

Separados há mais de um mês, torturado pelo silêncio dela, José resolveu usar a arma da poesia. Enviou-lhe duas quadras:

Que resta dela, da minha amada,

Do belo olhar de ternura sem fim,

Das estrelas no sorriso de fada,

Do cheiro a maresia e alecrim.

 

Na espera de magias sonhadas,

Na dor de sentimentos incontidos,

No mar das muitas lágrimas choradas,

Estás sempre tu, de braços erguidos!

 

A resposta de Maria não se fez esperar, forte, mas de poesia duvidosa:

Estou de férias, no bom repouso

Feliz e com alguém que me inspira.

Tua poesia parece de gozo,

Capa disfarçada da tua ira!

 

Nem sempre estou de braços erguidos

Mas vou ter mesmo de os levantar

Se de novo me vieres com gemidos,

Pedir algo que não soubeste guardar.

 

O pobre do José levou uns largos meses até ter coragem de mandar novos versos inflamados:

Sonhos que, à noite, em mim moram,

A ternura dum olhar que se mantém,

O peso das penas que me devoram,

Vêm bem sei donde, bem sei de quem!

 

 

Volta de vez para mim, minha paixão,

Traz de novo o sorriso de fada,

Perdoar-te-ei de todo o coração,

Só interessa o amor,…mais nada.

 

De novo, uma resposta de Maria, rápida e fulminante:

Agora, descoberto o meu caminho,

Chega-me a tua pobre poesia!

Fico a saber o que já sabia,

Vais ter mesmo de ficar sózinho!

 

A quadra seguinte é impublicável e foi o ponto final do romance. Cada um destes personagens seguiu o seu destino, sem mais poesias e os anos passaram.

Foi talvez há quatro anos, que encontrei o José. Na longa conversa que tivemos contou-me o modo poético como tinham terminado a relação. Perante o meu interesse pelos versos, resolveu oferecer-mos. Podia utilizá-los como quizesse, desde que não o identificasse. José sempre me incentivou a escrever. Foi por mero acaso que, há umas semanas atrás, encontrei a Maria, que já não via há dez anos, pelo menos. Contou-me que José tinha morrido em Angola. Um cancro, coisa de meses. Soubera só algum tempo depois, mas já desconfiava que qualquer coisa devia ter ocorrido, pois recebera uma carta anónima, com uma quadra, que pensou ser dele e que me mostrou depois:

Sete anos pastor p’ra mim é pouco,

Esperava a vida toda por ti,

A alimentar este sonho louco,

Mesmo, amor, sabendo que já morri…

 

Contei-lhe a conversa com José e que, afinal, acabara por não escrever nada, visto ter também versos feitos por ela. – Oh, não faz mal, pode escrever! Só não ponha aquele último. Fui tão horrível! – disse Maria.

Contou que se tinha separado há muito do professor. Fora uma efémera e triste ilusão. Hoje sofria por ter sido tão terrivelmente injusta com José. Não se perdoava por isso. Só por vergonha não o tinha procurado, depois de romper com o professor. Com as lágrimas nos olhos, foi-me dizendo: – Devia ter recebido outros versos dele, há muitos, muitos anos atrás…

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