Opinião – Geração Europa

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LUÍS PARREIRÃOLuís Parreirão

Muitos de nós cresceram e formaram-se na convicção que o seu desígnio, o seu projecto e a sua esperança de futuro residiam na Europa.

Suportaram, com esperança, os sacrifícios do início dos anos oitenta do Século XX. Viveram com um misto de angústia e de “fé” os primeiros anos da integração europeia e do que parecia ser uma fonte infindável de recursos e de progresso. Sentiam-se europeus, de corpo inteiro e de pleno direito, quando dois primeiros-ministros portugueses presidiram à União Europeia e sentiam que a voz de cada um deles contava. Achavam que a União, ao alargar-se a Leste, estava a cumprir o seu desígnio de afirmação dos direitos humanos, a par das suas dimensões de segurança e de mercado.

A Europa, o seu projecto político, estavam no centro do debate político nacional e faziam parte da nossa afirmação.

O Século XXI trouxe-nos a funcionalização da Europa, a sua caminhada para a irrelevância política, económica e geoestratégica, fazendo uma dolorosa demonstração de que quando não há política, nem coragem, as instituições se desagregam e os povos sofrem sem esperança, até um dia! Sempre, e só, até um dia…

É especialmente doloroso ver o último estudo do Eurobarómetro sobre a confiança, ou a falta dela, dos cidadãos europeus na União Europeia.

E o que o estudo revela é que a maioria dos cidadãos europeus não confia na União Europeia. Em Itália 53%, em França 56%, na Alemanha 59%, no Reino Unido 69% e na Espanha 72%! Daqui ao ressurgimento de nacionalismos vai um pequeno passo!

Infelizmente temos assistido à resposta a esta situação optando pelo caminho mais fácil, ou seja, responsabilizar a Sr.ª Merkel.

Mas não é este o caminho da esperança.

O caminho da esperança é enfrentar o que ela representa e, sobretudo, formular uma alternativa política credível, ideologicamente consistente e com ambição global.

A sociedade europeia vive hoje rupturas pluridimensionais até há pouco inimagináveis, pelo que as respostas políticas terão que ser, elas próprias, de ruptura e criação conceptual.

Talvez valha a pena, a este propósito, reflectir sobre as palavras de Jean Daniel, em recente editorial do Le Nouvel Observateur:

Pendant la guerre, Camus disait qu’il avait mal à l’Algérie. Nous pourrions dire aujourd’hui que nous avons mal à la France mais aussi à la gauche. Nous aurions raison, car l’une et l’autre ont profondément changé. Sondages et enquêtes, qui expriment désormais la seule vraie voix du peuple, nous confirment que les Français sont préoccupés par le chômage, l’avenir de leurs enfants, l’école, la sécurité et la santé. Et comme on leur demande en même temps de se prononcer en faveur de la transparence du patrimoine, ou du mariage gay, tandis que leurs représentants s’injurient, on ne peut pas dire qu’il leur soit facile de se réfugier dans l’espoir. Or c’est là l’essentiel de notre angoisse. Nos pères croyaient connaître leurs ennemis et avoir les moyens de les combattre. Depuis la perte de pouvoir et de prestige de l’Eglise, le discrédit du marxisme et la crise de l’école laïque, les refuges de l’espérance et du combat se sont évanouis.

 

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