Opinião – Asas por uns segundos

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J. PEDROSO DE LIMAJ. Pedroso de Lima

Numa das estreitas ruas da Baixa de Coimbra, a padaria da família era o símbolo de um nível de vida desafogado. A loja à entrada, era uma sala de grandes dimensões. Uma porta larga, uma distância ampla entre esta e o comprido balcão, um pé direito de mais de cinco metros. Altos armários dos lados da divisão e atrás do balcão, davam à sala um aspecto severo de biblioteca.

Tudo ocorreu num dia de calor e a uma hora em que só o meu avô se encontrava no estabelecimento.

Um touro, quando era levado para a praça de touros que, na altura, existia na cidade, conseguiu fugir. O acaso fez que o touro se encaminhasse para a rua da padaria e entrasse de rompante pela porta dentro.

Os homens que perseguiam a fera, alguma distância atrás, com longos paus para a encaminhar para a direcção certa, ao chegarem à padaria e espreitarem pela porta, depararam-se com uma cena inesperada.

O meu avô, sentado no topo de um dos altos armários laterais observava o bicho, lá de cima, enquanto este investia sobre o armário.

O meu pobre avô estremecia e subia um pouco no ar, a cada ataque do animal., mas o armário resistia firme.

Depois de repetidos esforços dos campinos o touro lá saíu da padaria correndo para o seu triste destino.

Viznhos e familiares vieram rapidamente apoiar o meu avô, pensando que este estaria ferido ou mesmo morto, mas encontraram-no com outro problema: não era capaz de descer do armário que devia ter mais de três metros de altura.

No meio das gargalhadas perguntaram-lhe como é que ele tinha subido até àquela altura. Já não se lembrava muito bem, mas, pareceu-lhe ter tido asas por uns segundos.

Tiveram de ir buscar uma escada para o meu avô descer lá das alturas.

– O bicho parecia raivoso. Nem a minha oferta de pão quente o serenou! Brincou o meu avô, um pouco confuso, mas agora cá em baixo, mais aliviado e com uma forte dor nas costas.

Houve quem dissesse que aquelas dores nas costas se deviam à marrada que o meu avô apanhou e que o pôs no topo do armário.

Puz-me a pensar e cheguei à conclusão que, ontem como hoje, o que muitas vezes é preciso é uma marrada salvadora…bem forte!

 

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