Opinião – A mineira negra Nhá Chica beatificada pela Igreja

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MANUEL AUGUSTO RODRIGUESManuel Augusto Rodrigues

Teve especial significado a beatificação da venerável Nhá Chica, filha da ex-escrava Isabel Maria que era solteira. O acto teve lugar na cidade de Baependi (Estado de Minas Gerais) e foi presidido pelo cardeal prefeito Ângelo Amato. Seu irmão Teotónio deixou a Chica uma avultada herança que ela distribuiu em esmolas para os pobres e na construção de uma capela para a Imaculada. Decidida a não casar, preferiu levar uma vida dedicada à caridade e à oração, como sua mãe lhe tinha aconselhado antes de morrer. É a primeira leiga e a primeira negra brasileira a receber as honras dos altares como foi destacado na nota oficial da Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros sobre a beatificação de Nhá Chica.

Amato delineou o perfil moral desta filha de escrava que agora é reconhecida como Beata da Igreja e lembrou o Brasil como país de enraizadas tradições cristãs dizendo que esta “riqueza de valores humanos e espirituais faz do Brasil uma terra abençoada por Deus e uma moradia digna de toda pessoa humana. Chica viveu plenamente estes valores, deixando-os como herança a todos os brasileiros, mas também a toda a Igreja”.

O Papa Francisco na carta de beatificação afirmou que ela era uma mulher imbuída de profunda espiritualidade e de um arreigado sentido de dedicação aos pobres do corpo e do espírito, testemunhando assim a mensagem das Bem-aventuranças. Tinha uma forte devoção a Nossa Senhora a quem chamava Minha Sinhá. O Papa concluiu as suas considerações dizendo que a sua beatificação é uma lição autêntica de vida cristã. Nhá Chica, a Santinha de Baependi ou Mãe dos pobres, como era conhecida, teve uma vida exemplar de fé, doação, humildade e abnegação. Foi uma pequena semente que deu frutos. A beatificação de Nhá Chica proporciona-nos três intervenções recentes do Papa Francisco I. Acerca da piedade popular disse: “… é um tesouro que a Igreja tem e que os bispos latino-americanos, significativamente, definiram como uma espiritualidade, uma mística”. Sobre a tragédia do Bangladesh, aludiu à situação escrava dos operários têxteis e afirmou que os empresários que buscam o lucro desenfreado estão “contra Deus”. O Papa disse que “não pagar um salário justo, não dar trabalho, só porque alguém está pensando nos resultados financeiros, no orçamento da empresa, em buscar apenas lucro isso é contra Deus”. Segundo o pontífice, “hoje no mundo existe essa escravidão que é perpetrada através da coisa mais bonita que Deus deu ao homem: a capacidade de criar, trabalhar e promover a sua própria dignidade”. E fez um vigoroso apelo aos governos para que combatam o desemprego e eliminem o trabalho escravo associado ao tráfico humano. A Organização Internacional do Trabalho estima que quase 21 milhões de pessoas no mundo sejam vítimas de situação análoga à escravidão ou trabalhos forçados. Finalmente, sobre os cristãos mornos que prejudicam a Igreja disse: “Quando a Igreja perde a coragem, entra na Igreja uma atmosfera morna. Os cristãos mornos, sem coragem… Isso prejudica a Igreja, começam os problemas entre nós; não temos horizontes, não temos coragem, nem a coragem da oração ao céu nem a coragem de anunciar o Evangelho”. O exemplo de Chica contrasta com o que se acaba de referir.

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