Investigadores querem elevar sons dos sinos a património cultural imaterial

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SINOS

Um grupo de investigadores quer inscrever o som dos sinos na Matriz Nacional do Património Cultural Imaterial, revelou à agência Lusa a campanóloga Maria Adelaide Furtado.

“É meu objetivo, e de um grupo de investigadores, elevar os sinos para terem reconhecimento na matriz nacional”, adiantou a também vice-presidente da Al-Baiaz – Associação de Defesa do Património, com sede em Alvaiázere, Leiria.

Para haver “reconhecimento como património cultural imaterial”, é necessário tratar-se de “património intangível”, pelo que “não serão os sinos, mas os sons e os que eles representam para a comunidade”, explicou.

“Costumo estabelecer o paralelismo entre o toque de um Stradivarius, um instrumento altamente qualificado em termos de acústica, mas tocado por uma caixa de madeira [em vez de cordas], o que não seria audível nem comparável. Os sinos ao serem tocados pelo exterior é a adulteração absoluta da sonoridade, porque a conceção do sino tem em vista obter uma nota musical”, acrescentou Maria Adelaide Furtado.

“Os sinos não estão a ser ouvidos segundo as notas e os cálculos dos fundidores”, salienta a investigadora, ao lamentar que se esteja a perder o som original, só possível através do toque manual dos sinos.

Na aldeia de Pelmá, no concelho de Alvaiázere, o sino da igreja ainda é dos poucos que é tocado manualmente, apesar de já ter o complemento eletrónico que marca as horas. Joaquim Carvalho, 67 anos, é um dos poucos sineiros que ainda sobe à torre sineira, pega no badalo e faz música.

Dedica-se aos sinos há 10 anos. “As pessoas foram falecendo. Estávamos preocupados com o desaparecimento desta arte e eu e a minha esposa dedicámo-nos a estas coisas da igreja”.

Aprendeu o repique, música tocada em casamentos e batizados, quando tinha 10 anos e frequentava a catequese. Por curiosidade, subia a torre e viu como tocava. Aprendeu de ouvir e com a prática.

“Não sei muitos toques, porque as pessoas que sabiam foram desaparecendo”.

Os aparelhos automáticos têm vindo a ocupar o lugar dos sineiros. Joaquim Carvalho lamenta não ter seguidores, porque garante que a “máquina não é capaz de transmitir a emoção e alegria”.

A função de sineiro “está em vias de extinção”, constata Joaquim Carvalho, explicando que os mais velhos vão morrendo e os jovens não se fixam por falta de emprego.

O segredo não se ficava apenas pela música dos sinos, como também pela arte de fabrico dos sinos. A fundição de Alvaiázere nasceu pela mão de António Alves e teve como sucessores dois netos. Foi a morte inesperada de um dos netos do fundador, ainda jovem, que levou ao encerramento da fundição, há 50 anos.

“Os registos deixados pelos mestres de Alvaiázere permitem-nos hoje dizer que existia a preocupação dos diferentes sineiros em alcançar o som perfeito”, salientou a campanóloga.

Maria Adelaide Furtado disse ainda que “não era qualquer pessoa que conseguia produzir um metal que reproduzisse a nota musical pretendida”. Os artífices “foram explorando esse saber misterioso e quase imortal”.

As fundições de Braga e a de Rio Tinto são as únicas que se mantêm em todo o país.

Os sinos são seculares. Segundo a investigadora começaram por ser colocados para chamar paroquianos às atividades, mas tinham funções de “vigilância e de chamar a população em momentos de crise”.

Existe um sem número de toques e funções. Desde o toque de finados, para que os cristãos juntassem as preces pela alma do defunto, ao sinal de alarme, da súplica ou do parto difícil.

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