Opinião – Pequena crónica sobre um país que estão a fechar

Posted by

JULIO MARQUES MOTAJúlio Marques Mota

Saí de Coimbra rumo ao Algarve. Passo várias estações de serviço. A estação de Santarém, de bombas BP, tinha gente, não muita, mas tinha. Compro uma sandes, porque é a única estação de serviço que julgo de alguma qualidade e quero uma mini. Não há mini’s!

É domingo, é tempo de férias, as da Páscoa. Depois, ao nível das estações de serviço, é uma desgraça completa. Carros estacionados, muito poucos. Gente a comer dentro das estações de serviço, ninguém! Em cada uma das que parei, fui para as mesas dos pobres, de madeira quase preta e áspera, comer uma sandes que trazia de casa e uma cerveja que ia lá dentro comprar. Mini? Não havia mini’s e fora do balcão dessas estações de serviço, ninguém ouvia esta resposta, porque não havia lá ninguém para lá dos empregados. Cá fora nas mesas destinadas aos pobres está um outro casal de avós com os seus netos e nesse dia sem sol e com chuviscos, havia ainda quem à maneira talvez de Jean Renoir quisesse fazer daquele passeio, claramente triste, uma festa: havia sempre uma toalha limpa e colorida que se colocava sobre a mesa de tábuas escuras para lhe dar alegria, como se alegremente estivessem num piquenique. Mas havia uma diferença, em Renoir partia-se de um mundo sem direitos para um mundo com direitos e ainda não se sabia o que fazer deles, enquanto agora, é o contrário, parte-se de um mundo de direitos, a que agora chamam de privilégios e parte-se para o mundo do nada.

Os meninos, esses ainda riam, mas claramente menos do que o habitual para a idade. Para trás deixavam os pais e sabiam que talvez tenham ficado para trás por dificuldades financeiras. Penso ainda nos homens que exploram estas estações de serviço. Cedo ou tarde irão fechar. Terão ganho um concurso para exploração da estação de serviço, penso eu, têm despesas fixas relativamente elevadas para as receitas que agora estão a obter. O drama, como em todas as crises, é que as despesas, os passivos, estão fixos, a margem de manobra é pequena e as receitas caem a pique, ou seja, repentinamente as pessoas ficam endividadas e com as dívidas a aumentar e sentem então que têm de se ir embora, que têm que fechar a porta. E lembro-me de Edward Hugh.

Chego ao Algarve, calmamente, por uma auto-estrada sempre ou quase sempre vazia. Um investimento brutal de um país, um rendimento de miséria para o investimento realizado. Se estamos com uma parceria público-privada, bom, é então um vazio que nos sai do nosso bolso.

São, por um lado, receitas que o Estado não pode tributar, porque como receitas deixam de existir, são depois impostos que adicionalmente teremos de pagar, quer para o défice criado quer para os lucros privados que deixaram de existir. Auto-estradas vazias. Será que os portugueses já se foram embora? E volto a pensar em Edward Hugh e nas auto-estradas de Barcelona vazias em que havia já aí alguém que apagava as luzes!

Chego ao Algarve e falo com um amigo meu marceneiro, homem de mãos marcadas por obra de classe ao longo de muitos anos talhada. Emprego, pergunto. A resposta? Nem a esperei, vi-a na cara dele. Perguntei-lhe se já tinha ido ao centro de emprego, onde direito a subsídio já não tinha. Diz-me que sim, registou-se como candidato a emprego em obras de carpintaria para a construção e, pasme-se, ofereceram-lhe sem direito a mais nada como compensação a possibilidade de ir ter aulas, gratuitamente, de alemão. Aulas de alemão para um homem desempregado da construção já com 55 anos e, portanto, sem ouvido para aprender alemão ou uma outra língua do mesmo género. Anedótico. Aqui milhares de homens sem emprego e com os prédios da parte histórica de Faro a cair por falta de obras de restauro. E a estes homens, oferecem-lhes aulas de alemão!

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*