Opinião – La Remontada

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Paulo Almeida DRPaulo Almeida

A teoria que pretende solucionar a economia de um país por intermédio da conversão de pessoas pobres em pessoas muito pobres é uma moda que parece ter os dias contados. La remontada começou este fim-de-semana na Islândia, com os conservadores e liberais a regressarem ao poder. Os tais que foram apontados como os grandes culpados da crise. Afinal, os islandeses gostam ainda menos das medidas de austeridade e trataram de as castigar severamente nas urnas. Pelo meio, a candidatura islandesa de adesão à União Europeia pode ter que arrepiar caminho.

Vivem-se tempos conturbados, em que as ideias políticas são linhas que se descosem facilmente. Em nome da austeridade, da União Europeia, do regime, ou de outra coisa qualquer. São nomes não percepcionados pela generalidade dos cidadãos, mais ocupados a manterem-se à tona de água. Cada vez mais desprezam a política e os políticos, de quem querem distância. Se ainda fosse preciso mais algum sinal, o desempregado italiano Luigi Prieti disparou este Domingo o que pensa sobre os políticos do seu país. Felizmente que ninguém morreu, mas não querendo soar como a minha mãe quando era miúdo, depois ninguém diga que não foi avisado.

À boa maneira portuguesa, fica sempre bem dizer que podia ser pior. A irresponsabilidade dos actores políticos podia conduzir à ascenção de um partido pirata em Portugal, ou de um movimento que capitalizasse o descontentamento com a classe política. Podia ser pior, portanto. Por exemplo, podíamos viver no país mais pobre da União Europeia – Bulgária –, onde mais de 20% da população vive abaixo do limiar da pobreza e onde o salário médio mensal é de 400 euros. Resultado: protestos violentos, confrontos com polícia e imolação pelo fogo de 6 pessoas no último mês. Consequência: o governo apresentou a demissão e foram convocadas eleições para 12 de Maio. Até agora, a renúncia ao poder pelo partido de centro-direita parece estar a dar os seus frutos, pois o partido socialista não consegue ter vantagem nas sondagens. O único partido que sobe nas intenções de voto é o “Ataka”, um partido nacionalista fundado em 2005.

Ou podia ser pior como na Hungria, onde o Tribunal Constitucional decidiu que a partir de 1 de Maio passa a ser livre a utilização de símbolos nazis ou símbolos relacionados com ditaduras comunistas. Somente 4 dias depois, no dia 5 de Maio, tem início em Budapeste a sessão plenária do Congresso Mundial Judaico. A intervencionada Hungria, outrora imperial, encontra-se acusada de derivas autoritárias que incluem ataques à comunidade cigana (nem de propósito, a igualmente intervencionada Roménia faz fronteira com Hungria e Bulgária) e que já chamaram a atenção da comissária europeia da justiça, Viviane Reding, que prometeu até meio deste ano tomar uma posição.

Por cá, ainda nos aguentamos. Em Portugal, ninguém quer abdicar da democracia e dos seus valores intrínsecos. Há é políticos que ainda não entenderam que eles não são o suporte da democracia. Enquanto não existirem reais alternativas de políticas, o regime vai-se arrastando. À falta de escolha, vai-se votando numa alternância de figuras. É de certa forma duplamente triste saber que quem receberá o poder é por descontentamento com o quem o exerce de momento, que não se parece importar que o trabalho em que tão piamente acredita seja abandonado na legislatura seguinte. E nós a vê-los passar.

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