Opinião – A obra literária de Miguel Torga em leilão

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MÁRIO NUNESMário Nunes

Recebemos, regularmente, catálogos bibliográficos de alfarrabistas, livreiros e leiloeiras do país. A passada semana folheámos o conteúdo do último chegado ao nosso poder – um autêntico livro com 102 páginas, registo de milhares de obras e centenas de autores – que anunciava o leilão de raridades literárias e outras de escritores, artistas, historiadores e cientistas de renome nacional e mundial. Uma das páginas destaca 46 livros de Miguel Torga com relevância para algumas primeiras edições e outras de reduzida tiragem.

Porque lemos, com frequência, trabalhos torguianos, e porque possuímos vários livros de primeiras edições (um até assinado), adquiridos em Lisboa, há anos, em casas de velharias, quando ali vivemos, tivemos curiosidade de confrontá-los com os do catálogo recebido para aquilatar da evolução do preço. Mas, para mágoa nossa, nenhum dos nossos integrava a lista.

O leilão deu-nos motivos de júbilo e momentos de tristeza. De alegria pela “confortável” quantia da venda de alguns. De surpresa negativa pela fasquia muito baixa de outros, porquanto denotam que não partilham, ainda, no público, da riqueza criativa desta personagem incontornável das letras contemporâneas europeias. Na leitura efetuada anotámos que os 16 volumes, 1ª.edição, do “Diário”, brochada, se perfilaram para leiloar pelo preço mínimo de 750 euros, enquanto o “Pão Ázimo”, 1931, o primeiro em prosa do autor, publicado com o seu verdadeiro nome e com o seu retrato desenhado por Arlindo Vicente, atingia os 700 euros, e a “Rampa”, outra preciosidade, edição da Presença, chegava aos 800 euros, e o “Tributo/poemas”, de 1931, partia dos 700 euros. Os “baratos”, exemplo de “O Senhor Ventura”, 1942, apenas valia 30 euros; “A Criação do Mundo”, somente, 35 euros; “Fogo Preso”, 20 euros; “Vindima” por 15 euros. Nesta relação verificamos um evidente contraste. Apesar de alguns, terem várias edições, pensamos que o autor, sustentado no pendor literário da sua grandiosa obra, deverá ocupar um lugar mais elevado no contexto do interesse dos leitores. Pois, Miguel Torga não é um poeta vulgar, é um dos grandes marcos da nossa literatura, candidato por três vezes ao Nobel e premiado com relevantes galardões, entre outros, os prémios Camões, da Crítica, Diário de Notícias, Internacional de Poesia, Montaigne. A sua escrita abraça o mundo contemporâneo e possui uma raiz existencial, desde a sua origem à consciência de si mesmo, como homem que sente, contempla, observa, narra e interpreta, julga. A sua escrita é abrangente, local e universal.

Patrono de inúmeros estabelecimentos escolares em Portugal, com a sua Casa-Museu em Coimbra, figura emblemática da cultura, muito estudado, bem como a sua obra, impõe-se que alcance maior divulgação, saindo do limbo do conhecimento. Coimbra, centro de criação literária do seu mundo, terá de prosseguir a senda de o honrar e elevar ao “altar” mais grandioso, que lhe pertence, por justiça.

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