Opinião – A importância do património de não proibir

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sessenta anos a alta de Coimbra iniciou um processo de reestruturação gigante. Muitos moradores foram deslocados da alta da cidade para zonas limítrofes e foi feito um projeto para novos edifícios da Universidade à medida da estética do regime. As antigas Escadas do Liceu, pejadas de tradições, foram demolidas e deram lugar às Escadas Monumentais que dão acesso ao largo D. Dinis. As novas escadas acabaram por ir sendo incorporadas no imaginário dos estudantes que, para além da contagem e medida dos degraus com múltiplas unidades, tornaram as duas esferas ao cimo no símbolo da virilidade de D. Dinis e outras lendas vão contando sobre a queda das esferas num dia futuro.

A sua história é curta para um monumento português, mais curta até do que as antecessoras Escadas do Liceu. Mas no momento em que decorre a candidatura da Universidade Coimbra a Património Mundial da UNESCO, eu considero que as atuais escadas merecem também ser consideradas património, pelo valor simbólico associado à criatividade e liberdade de expressão na cidade de Coimbra.

As escadas foram palco de perseguições a cavalo pela polícia no tempo da ditadura e depois da instauração da democracia tornaram-se local assíduo de comícios, concertos, manifestações e pinturas com conteúdo político realizadas tanto pelos estudantes como por forças partidárias.

Este símbolo da liberdade de expressão em Coimbra está em risco de desaparecer. Não porque as escadas estejam em risco de demolição, mas porque a nova definição de património que se procura impor implica a categorização de qualquer pintura na escada como vandalismo. Na Quarta-feira, dia 10 de Abril, realiza-se mais uma sessão do julgamento que coloca no banco dos réus vários membros do PCP por terem pintado as escadas monumentais a 22 de Maio de 2011 durante o período de campanha eleitoral.

Eu venho tentar relançar a discussão noutro plano que não o do puro combate político. Porque não assumir que as Escadas Monumentais são um espaço de liberdade de expressão e criatividade para políticos e artistas? Porque não assumir que este local é o nosso “Speaker’s Corner” de Coimbra?

O sacrilégio de pintar sobre o cinzento uniforme já foi feito há mais de 30 anos e desde então este espaço permaneceu quase sempre apropriado por estudantes e forças políticas, com mais ou menos qualidade artística, mas sempre com mensagens de natureza não obscena. No “Speaker’s corner”, em Londres, a polícia também pode impedir de falar quem profere obscenidades, o que é muito raro porque esse local é respeitado e visto com orgulho pelas pessoas. É uma das maiores atrações turísticas da cidade.

No caso das Escadas Monumentais, mensagens de natureza política deixariam de ser consideradas vandalismo. Durante as campanhas eleitorais, políticas ou estudantis, todos os movimentos poderiam expressar a sua criatividade e fora dos períodos eleitorais a cidade convidaria artistas para pintar os lances. Isso seria visto com orgulho pelos estudantes e iria seguramente atrair mais visitantes.

Com a ilegalização súbita da pintura das escadas morre uma história de criatividade e ao mesmo tempo vem dar-se peso excessivo a apenas uma parte do património, que é fruto de uma estética propagandística do regime de Salazar que procurava precisamente silenciar as pessoas. Não digo que este processo seja intencional e muito menos digo que as pessoas que se opõem são contra a liberdade de expressão. Eu reconheço que também é uma questão estética e que muito se pode melhorar para que, independentemente das convicções políticas, todos nos possamos orgulhar do monumento à liberdade que até hoje foi o local das Escadas Monumentais. Digo, no entanto, que querer preservar a integridade estética do cinzento e proibir as intervenções nas escadas é possivelmente um erro enorme para o qual gostaria de chamar a atenção dos artistas e dos defensores do património.

One Comment

  1. Completamente de acordo! Viva a Liberdade de expressão…. mas para todos, comunistas e não comunistas! O problema é que nesta cidade há cidadãos e cidadãos, uns com direitos e outros sem direitos, uns que podem fazer tudo de forma impune e outros que são perseguidos, se fizerem exatamente o mesmo, ou muito menos do que isso.

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