Letras é a segunda faculdade que mais fatura

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Foto - Carlos Jorge Monteiro

Foto – Carlos Jorge Monteiro

Que se pode esperar dos cortes orçamentais na Faculdade de Letras?

Pode esperar-se um futuro sombrio. A Faculdade de Letras está neste momento abaixo da linha de água. Ou seja, já não tem o orçamento mínimo necessário para sobreviver, já não digo com o nível de excelência, mas com um nível mínimo de qualidade. Já não temos condições para despender as normais verbas do funcionamento; nem sequer para manter o nosso corpo docente dentro dos patamares necessários a todos os nossos cursos, de 1.º, 2.º e 3.º ciclos.

 

Espera que se mantenha a solidariedade por parte das outras faculdades?

Há naturalmente algumas faculdades que olham com desconfiança para outras, onde os níveis de consumos são mais elevados, mas solidariedade existe sempre. Desde logo, porque as despesas permanentes – remunerações, rentings… – entraram num figurino chamado orçamento estrutural, criado pelo senhor reitor e gerido, de topo, pela própria Reitoria e pela Administração da universidade. Ora, sendo a Faculdade de Letras deficitária, pela sua natureza, é claro que sente os níveis de solidariedade das outras.

 

O valor do custo por aluno é dos mais elevados?

Na Faculdade de Letras, o custo será o terceiro ou quarto mais elevado da universidade, dependendo da forma como se façam as contas. O que sucede é que a faculdade tem uma malha curricular muito imbricada, uma complexidade que acaba por desencadear um processo que leva à existência de muitos docentes…

 

Isso é uma crítica ao Conselho Científico?

Não. É apenas a constatação de que a faculdade tem a malha curricular que deveria ter uma escola de artes e humanidades de excelência. É, aliás, fruto de um plano estratégico que data do início da transição do milénio, portanto não é tão antiga assim.

 

Admite que há excesso de docentes?

Se nós avaliarmos a ratio docente/discente, à luz de uma portaria – que nunca foi revogada, diga-se -, a faculdade, que já teve docentes a mais, está hoje dentro dos parâmetros normais. Ou seja, houve gente que se reformou e não foi substituída, o que leva, mesmo, a que tenhamos, hoje, um défice grande de professores catedráticos e associados.

 

Isso torna a faculdade dependente dos professores auxiliares?

Claramente. Aliás, os professores auxiliares já são mais de 70 por cento. Com a redução sucessiva dos orçamentos, nos últimos anos, fomos obrigados a cancelar progressivamente os concursos para associados e catedráticos. Isso significa que temos, hoje, professores auxiliares com 16 e 17 anos de carreira, que é o tempo que levam de doutores. Gente prestigiadíssima que, noutro contexto, seria professor catedrático. E vai ser pior, o que não é francamente aceitável. E outro dos problemas é o envelhecimento do corpo docente… É inaceitável que não tenhamos qualquer docente com menos de 30 anos e, abaixo dos 40, serão pouco mais de meia dezena.

 

Voltando à malha curricular…

Sim. Temos de admitir que é excessivamente complexa, tendo em conta a situação atual. Recordo que há cursos que, à luz da legislação antiga, previam uma ratio docente/aluno de 1 para 22, ou mesmo de 1 para 25. Mas, noutros cursos, da área das artes, já baixa de 1 para 12. Por outro lado, há cursos, como Jornalismo, que requerem muito trabalho laboratorial, que não podem ter os mesmos cursos de outros, “de lápis e papel” com turmas grandes.

 

Receia que a faculdade seja forçada a dispensar os professores convidados?

Se o caminho, imposto pela tutela, for esse, a faculdade teria de fechar uma parte dos seus cursos. Tem a ver com a natureza e com a antiguidade dos cursos. Veja o caso do Jornalismo, que até é o mais velho dos cursos novos, mas não suficientemente antigo para ter criado o seu próprio quadro docente. Para além disso, é um curso de elevada especialização, não fazendo sentido ter um professor catedrático para dar quatro horas de aula por semana. Tudo isto obriga-nos a ter um docente convidado em regime de tempo parcial. Situação idêntica verifica-se nos cursos de Informação, de Estudos Artísticos, de Turismo, de Estudos Europeus.

 

O que mudou na faculdade com a sua gestão?

A faculdade deu um salto muito grande, nos planos da sua identidade, da afirmação externa e até da sua imagem. Aliás, quem entra nesta casa, hoje, e tem memória de como era há 10/15 anos, nota bem a diferença. Aquilo que era um espaço atravancado, pouco acolhedor, é hoje inteiramente diferente, arejado, aberto. Também a sua estrutura, que era uma teia intrincada de competências, com os seus 21 institutos, distribuídos por 30 salas de leitura, que tornava a gestão impossível, foi completamente transformada. Hoje, a faculdade reparte-se por apenas quatro departamentos. E isto é de facto uma estrutura muito racional, muito lógica. É claro que, ao princípio, houve quem dissesse que não funcionaria, mas está a funcionar. Ainda não é perfeita, mas também tem apenas quatro ou cinco anos…

 

É a sua herança positiva?

É algo a que me orgulho de ter estado ligado. Veja que a estrutura departamental andava a ser discutida há muito tempo. Caía e voltava a discutir-se, ciclicamente, como é infelizmente normal, na administração pública. E isto apesar de a lei impor a sua aplicação. Ora eu limitei-me a designar um grupo de trabalho, com quatro ou cinco professores para fazerem um estudo e apresentarem uma proposta que seria, depois, a minha proposta. Fez-se isso e, no final, a proposta foi votada, em plenário do Conselho Científico, onde foi aprovada.

 

Outra transformação foi a aposta na prestação de serviços como fonte de rendimento…

Eu prefiro falar em transferências de saber, que são, afinal, uma forma de a faculdade se cumprir enquanto tal. Não é apenas uma forma de afirmar a sua autonomia, o que é verdade e permite-nos, como diria um empresário, faturar. E nós estamos a faturar muito. Veja o caso da Geografia, que se cumpre, do ponto de vista científico, quando contribui para a elaboração de cartas educativas, de cartas sociais, de cartas desportivas, quando faz os estudos para o Governo definir políticas de Saúde, ou de Educação como foi o caso, no Governo anterior, que reavaliou os apoios ao ensino particular.

 

Para além da Geografia, que outras áreas contribuem para essa transferência de saberes?

Outro grande contribuinte é o nosso Centro de Línguas. Veja que nós vamos a empresas ensinar o Português. Há empresas, em Coimbra, com grande potencial tecnológico, que recebem técnicos e investigadores estrangeiros e que nos contratam cursos de Português. Depois, temos a Arqueologia, agora a trabalhar em Bragança, depois de ter “erguido” o Museu Vivo de Beja ou a Rede de Castelos do Mondego. Não estamos ainda tanto quanto eu gostaria, neste aspeto, com os Estudos Artísticos. E temos ainda o nosso trabalho de internacionalização, com os Mestrados em Angola, Moçambique, Brasil, Timor…

 

Há quem critique essa opção de natureza empresarial…

Sim. Há quem diga que isto é errado mas eu penso que procurar uma dimensão empresarial, numa faculdade de Letras, é reduzir fortemente a sua dependência e a verdade é que, no nosso caso, já somos a segunda faculdade de toda a Universidade de Coimbra com maior volume de receitas próprias.

 

Que balanço faz da participação da faculdade na investigação interdisciplinar?

Muito positivo. A faculdade está presente, “com peso”, em quatro centros exteriores, todos com atividade interdisciplinar muito intensa. São eles o CEIS XX, o CES – estes dois com coordenadores atuais oriundos da faculdade –, o Centro de Investigação Media e Jornalismo e o Centro Interuniversitário de Estudos Camoneanos.

 

Agora, de saída, resiste a apontar um sucessor?

Não tenho de deixar. Fiz equipas e tenho muito orgulho em todas. O que penso é que a faculdade tem de encontrar soluções sem eu ter de intervir nelas. Uma das razões por que não sou monárquico é justamente essa. Mas quem tem a sua própria identidade e quer liderar um projeto não pode ser 100 por cento consensual. As divergências são sempre bem-vindas e, no meu caso, julgo que foi muito positivo ter concorrido sempre com uma candidatura alternativa.

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