Fio-de-prumo: O Mundo mudou (I)

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LUÍS PARREIRÃO

Luís Parreirão

Que o Mundo mudou, e muito, já não será certamente notícia. Que sempre está em mudança e que o presente se transforma em passado a cada momento que passa é, para mim, uma verdade certa e segura.

O que é surpreendente é ver que ao mesmo tempo que o mundo muda, os seus responsáveis – e, já agora, os principais órgãos de comunicação social – se distraem, e nos distraem, com a espuma.

Invadidos por previsões económicas teimosamente erróneas, futebolísticos assuntos, infindáveis e inconclusivas reuniões europeias, sucessivas “cenarizações” da crise feitas por quem “bebe do fino” e, claro, “a questão cipriota”, não restou disponibilidade para saber o que aconteceu na África do Sul, na semana da Páscoa de 2013 – na semana que passou.

Não, não foi mais uma reunião dos BRICS! Terá sido, a meu ver, a reunião dos BRICS!

Numa cimeira do mais alto nível político juntaram-se os presidentes de cinco países que:

• Respondem por 25% do PIB mundial;

• Representam 40% da população do mundo;

• Crescem, em média, em 2012 e 2013, entre 6% e 7%;

• Assumem 10% do Investimento Directo Estrangeiro feito em todo o mundo.

Cinco países histórica, política e fisicamente distantes que uma nova geografia do desenvolvimento juntou. E juntou na substância pragmática das decisões, no olhar e na abordagem do futuro e, sobretudo, numa dimensão de sintonia política invulgar.

Certamente que a decisão de criar um Banco de Desenvolvimento, vocacionado para financiar projectos de infra-estruturas em países emergentes e com uma dotação de 50 mil milhões de dólares é relevantíssima. Como revolucionária é a decisão de incorporar um Fundo, com uma dotação de 100 mil milhões de dólares, para apoiar países emergentes com problemas financeiros.

Mas, acima de tudo, aqueles países afirmaram sem tibiezas, nem meias palavras: a) que estas novas instituições financeiras pretendem ser uma alternativa ao Banco Mundial e ao FMI; b) que quer estas instituições quer o Conselho de Segurança das Nações Unidas deveriam modernizar as suas estruturas de governança.

Foi, pois, de política que ali se tratou. Porventura do nascimento de um novo e inovador bloco com capacidade, e vontade, de actuar à escala global.

Ainda é cedo para perceber todo o alcance da Cimeira de Durban. Mas não é cedo para perceber que os BRICS se reuniram para tratar de coisas sérias, e a sério.

Enquanto isso a Europa deixa-se afundar numa grave crise que mascara de crise financeira, mas que é política e institucional, de projecto e de liderança.

Por cá, enquanto as empresas sucumbem, os cidadãos passam fome e a esperança de gerações se esvai, assistimos a gestos pueris, como o de dois ministros que assinaram entre si um protocolo que tem como objecto proporcionar às IPSS o peixe que sobra de experiências científicas!

Nada que um discreto e esclarecido telefonema não resolvesse…

É que o mundo mudou mesmo. Aos “números“ políticos em que alguns se viciaram, sucederam os números de um mundo em mudança que urge compreender. Quem se ficar pelos primeiros corre o risco de nunca perceber os segundos!

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