Opinião – Para além dos fumos

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Francisco Queirós

Francisco Queirós

Por estes dias, há quem viva suspenso de sinais de fumo. Os católicos aguardam que um restrito colégio de cardeais, ungidos e designados pelos anteriores líderes da Igreja, escolha o seu novo líder e chefe do Estado do Vaticano. Quando haverá fumo branco?

Os jornais e outros meios de comunicação, ao correr da maré, anunciam que ainda não há fumo branco a propósito do último exame da troika, sugerindo que o país submetido a rigorosos exames está suspenso da nota dos fiscais examinadores.

Na segunda década do século XXI, quer-se crer que os povos aguardam por sinais de revelação, prenunciadores de um destino próximo que não lhes pertence ou que pelo menos não está nas suas mãos. As igrejas farão como entenderem os seus membros e fiéis, obedientes a regras e leis ancestrais ou nem por isso. Será com eles.

No que às nações e aos povos respeita também, afinal.

Portugal e os portugueses podiam aguardar sossegados como a nêspera do poema de Mário Henrique Leiria. Ou não. “Uma nêspera estava na cama/ deitada/muito calada/a ver/o que acontecia/chegou a Velha/e disse/olha uma nêspera/e zás comeu-a/é o que acontece/às nêsperas/que ficam deitadas/caladas/a esperar/o que acontece.” À espera de acontecer fumo branco …E é certo, não faltam velhas troikanas desejosas de ver um povo deitado na cama, muito calado a ver o que acontece. Desenganem-se, porém! Um povo não espera acontecer.

Geraldo Vandré em “Pra não dizer que não falei das flores” cantou: “Caminhando e cantando e seguindo a canção/ somos todos iguais braços dados ou não / Nas escolas, nas ruas, campos, construções/Caminhando e cantando e seguindo a canção. / Vem, vamos embora que esperar não é saber, Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Não espera acontecer. Não aguarda pelo fumo branco, sobretudo se tal como no poema /canção do brasileiro que em 1968 venceu o III Festival Internacional da Canção, tornando-se um hino de resistência contra a ditadura brasileira, “pelos campos há fome em grandes plantações/ Pelas ruas marchando indecisos cordões/ Ainda fazem da flor seu mais forte refrão/ E acreditam nas flores vencendo o canhão (…) Os amores na mente, as flores no chão/ a certeza na frente, a história na mão.”

Mas quem sabe faz e não espera acontecer. Vivem-se dias de incertezas. Dias cheios e longos a que se seguem dias mais longos e mais difíceis. Um país a esvaziar-se de gente, sobretudo de jovens. Mas um país cheio de gente sem trabalho e sem muita esperança.

Portugal não é uma terra de nêsperas deitadas na cama. Não aguarda pelos fumos brancos da troika. Para além dos fumos, com amores na mente, fazendo da flor o mais forte refrão, com a história na mão, um povo que sabe faz, não espera acontecer. Ou não será assim?

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