Opinião – O teatro em Coimbra: as raízes do passado

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Helder_rodriguesHélder Rodrigues

Coimbra; Uma das 70 cidades inteligentes da Europa

1. Coimbra. Meados do Sec XX

Há 50-60 anos atrás, tantos quantos a memória recorda, o Teatro em Coimbra tinha uma grande adesão de toda a cidade.

Ainda não tinha chegado a TV, com a massificação da informação e do entretenimento, que mudou para sempre os hábitos da população. O Teatro, juntamente com o Cinema, constituía um pólo de atracção fortíssimo junto da população da Coimbra de então.

 

2. O Teatro Popular

Nessa altura ainda não existiam grupos de teatro profissionais em Coimbra. Eram as inúmeras sociedades recreativas que da Alta à Baixa, de Celas ao Calhabé, formavam os seus grupos amadores, para representarem no palco as vicissitudes da vida.

Quando, dias antes, se anunciava a estreia de uma peça, logo a noticia corria pelas ruas e se transmitia , de boca em boca, em alvoroço!

Eram peças simples e genuínas que falavam ao coração do público anónimo. Que se ria a bandeiras despregadas com as sátiras do Bocage, interpretadas por um conhecido sapateiro das ruas da Baixa. Que, suspirava com os amores das Pupilas do Senhor Reitor” em que o galã era um jovem que trabalhava no Banco e a Margarida uma adolescente que andava a aprender para modista. Que, estremecia com “A Rosa do Adro” quando partia a bilha. Uma bilha de barro, com defeito, que tinha sido dada pela D. Isabel Pantana, com olaria no Terreiro da Erva.

Eram peças de uma genuinidade atroz! Por vezes um personagem puxava do cortinado e perguntava “Se já era a vez dele, para entrar em cena”!.

O publico saia dali de alma cheia! Aquilo que ali vira, em palco, já tinha acontecido com ele ou podia muito bem ter acontecido. E ao outro dia, logo de manhã, ouviam-se frases como: “Oh vizinha. Ontem não a vi lá. Não perca porque é muito bonito! O meu Homem, gostou muito”!

Por altura da Pascoa, a cidade era agitada pela chegada do Teatro Desmontável Rafael de Oliveira. Esse sim! Já com actores que sabiam da poda. Com peças de maior nomeada; “ O Grande Industrial”, “A vida dum rapaz pobre”, “Que Deus lhe pague”.

E o Povo vestia fato limpo, punha gravata, brilhantina no cabelo e enchia, todas as noites, o imenso Barracão! Durante semanas a fio!

 

3. O Teatro Clássico

Na outra extremidade da escala social estava o TEUC. Dirigido por esse grande mestre, o Prof Paulo Quintela.

Quasi sempre no Teatro Avenida, dirigido às elites da cidade, ali eram representados os grandes clássicos desde os gregos aos europeus, desde Esquilo e Moliere até Tchekov. Mas sobretudo Gil Vicente.

Depois o TEUC partia em digressão até ao Brasil e ao Ultramar português, onde era esperado com anseio e acolhido em festa.

 

4. A importância do Teatro em Coimbra

No 1º Exemplo: Eram tempos difíceis aqueles! As pessoas trabalhavam dias inteiros em troca de magras côdeas! O Teatro funcionava como uma válvula de escape, um espaço de convívio e de coesão social. Uma partilha de saberes, comportamentos e afectos.

No 2º Exemplo: o Teatro funcionava como um alargamento de horizontes culturais e sociais. Que depois se estendia como veiculo de promoção de Coimbra e da sua Universidade ao Mundo Lusofono.

Em ambos os casos, o Teatro era, então, uma actividade fundamental na vida e na dinâmica da cidade!

Com estas Raizes tão profundas, acredito no presente e no futuro do Teatro em Coimbra!

 

3 Comments

  1. Maria Schultz Loup says:

    Além do TEUC não havia outro grupo. Não era o CITAC?

    • Sim, havia e ainda há. Não era muito bem visto, pois já nessa altura era muito "do contra". Feito apenas por estudantes rebeldes cujos textos ultrapassavam o senso comum da época

  2. Corroboro completamente. Minha mãe fala-me muitas vezes das sessões de teatro do Clube Recreativo do Calhabé, em que meu avô era o "encenador"

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