Opinião – Grandoladas

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PAULO-VALERIOPaulo Valério

Que alguma coisa vai mudar no sistema político português, deixou de ser uma afirmação atrevida, para ser um lugar-comum. Ninguém sabe muito bem quando, como, quem ou onde, mas a sensação de que algum acontecimento de contornos imprevisíveis ditará uma mudança disruptiva no sistema está instalada.

Durante muito tempo, todas as previsões neste sentido foram apontadas como desmandos radicais e os seus portadores acusados de servir inconfessados desígnios, susceptíveis de comprometer a placidez do regime, muito compenetrado a guardar a “normalidade das instituições democráticas”. À esquerda e à direita, o chamado arco do poder sempre correu para neutralizar as ameaças de desintegração. E, por mim, o modo como mesmo destacados dirigentes do PS deram o peito às balas para defender Miguel Relvas das Grandoladas diz muito deste fenómeno.

Miguel Relvas, suado e encurralado em frente das câmaras, a tropeçar nas palavras enquanto procura trautear “Grândola Vila Morena” é mais do que a imagem burlesca de um personagem ridículo. É uma caricatura chocante do regime onde, com maior ou menos cumplicidade, se acoitam respeitáveis dirigentes políticos e uma parte da sociedade portuguesa, há largos anos.

No sorriso amarelo de Relvas, reconhecemos facilmente o esgar de centenas de homens pequenos, por esse país fora, de esquerda e de direita, impostores e caciques mais ou menos locais que são, afinal, o cimento dos partidos políticos, tal como hoje os conhecemos. É uma imagem impressiva que, sem surpresa, provoca reacções mais ferozes e empenhadas do que o desfile de um milhão de portugueses nas ruas.

Na verdade, defender que o Ministro que tutela a comunicação social está coarctado na sua liberdade de expressão por causa das Grandoladas é um pino retórico que só encontra justificação na necessidade de travar, a todo o custo, a amputação de um sistema de poderes putrefacto.

Talvez sejam exageradas as notícias sobre a morte dos partidos políticos, mas tudo leva a crer que eles têm pela frente uma decisiva prova de vida.

One Comment

  1. Fernando Abel Simões says:

    Acerca desta opinião – Grandoladas; no seu conceito geral não poderei estar de acordo. Sendo certo que nem sempre a classe política foi capaz de dar a melhor imagem de si mesmo; é verdade que muito boa gente se tem dedicado ao longo dos tempos a servir a cousa nobre nos diferentes níveis da Administração Pública. De facto, o Ministro Relvas no decorrer do mandato deste governo, se foi colocando a Jeito de chamar sobre si um descontentamento generalizado dos Portugueses, com as politicas implementadas pelos seus colegas da governação. Tem o mérito de proteger o 1º Ministro e um outro rapaz que qualquer empresário não o queria sequer para seu técnico de contas. Mas a crise que alguns esperam que aconteça nos partidos políticos não se traduzirá em mais vantagens para a vida dos cidadãos. Eu receio mesmo que uma solução fora do âmbito do Sistema Democrático, conduza a uma experiência longa como aconteceu no tempo de Salazar. Ás vezes estes movimentos que são genuínos portadores de uma certa esperança , porque são generosos, mais não fazem do que ajudar a estratégia dos detractores da Democracia que há muito espreitam forma de se vingarem . A Democracia custou muito a conquistar , inclusive a vida a milhares de cidadãos que mais não queriam do que ser tratados com a dignidade devida . O que está em causa na sociedade Portuguesa é a falta de equidade, onde todos estejam da mesma forma sob a alçada da lei. Não pode haver decisões na Justiça para pobres ou para ricos e muito menos para aqueles que estando perto do Poder dele se apropriem . Não pode e não deve pesar qualquer suspeita sobre um governante e, quando acontece, este devia ter a coragem de se afastar. Os cidadãos querem acreditar nos seus políticos , e por isso mesmo a sociedade Portuguesa já hà muito disse e, tem continuadamente a dizer que é contra os extremos.

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