Opinião – Falar muito e dizer pouco

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MÁRIO NUNESMário Nunes

Diariamente, somos “massacrados” por discursos ou excertos de intervenções mescladas de hipocrisia, numa linguagem sem “sumo” e quantas vezes sem articulação semântica, produtos linguísticos de políticos de carreira, de economistas teóricos, de politólogos de recente geração e de comentadores “habilitados” para tudo comentar (sabem de todas as matérias). Revelam nas suas verborreias o fulgor das “inteligências livrescas”, o conteúdo de sebentas mal lidas, originando uma fraseologia saturante, quais relógios de repetição, pois o “discurso” foi dito dezenas de vezes com o mesmo sentido. Mudaram, apenas, as caras. Austeridade é necessária para resolver o problema nacional de pré-bancarrota e a luz quase a brilhar ao fundo túnel, compaginam fórmulas repetidas para iludir os ouvintes, os portugueses. Todo este palavreado é, por vezes, inserido de frases plenas de arrogância, sorrisos irónicos, com rostos de sabedoria enlatada e tiques de pseudo-sabichões, num alarde de desdenhosa superioridade que revela a incompetência resultante da teoria encaixada, sem a prática condizente, de cursos académicos feitos ou tirados a soluços durante anos e ou obtidos pelo telefone ou pelo correio.

Na análise da linguagem destes iluminados verificamos que as empoladas afirmações abonam, também, a ausência de ética e até de educação, esquecendo que aqueles que os escutam têm direito ao respeito e a ouvir a verdade, a palavra que supomos pensam invocar nas suas comunicações, mas que confundem com a mentira que estão a propalar. O dicionário que consultam, possivelmente, terá o significado ao contrário.

Neste sentimento de mentira, de superioridade, de desconhecimento da realidade, surdos aos conselhos dos que sabem e têm experiência política, profissional e cultural, teimosos incorrigíveis nos erros que cometem e nos esquemas que organizaram, arrasando a dignidade e a qualidade de vida dos cidadãos, prestam-se, ainda, a ofender quem vive em delicada situação por mor das políticas desastrosas que implementaram para conduzir o país. E, com as calmas falinhas vão debitando previsões que são o fruto das teorias académicas, livrescas, que estudaram, e que conduzem ao falhanço completo desses cálculos por falta do prévio estágio no país real, na sociedade em que vivem. E, neste caminho desarticulado vão opinando percentagens e desdizendo hoje o que disseram ontem, mesmo no próprio dia, contradizendo as versões que propalaram sem a devida reflexão. E, muitas vezes, são os dedicados jornalistas os culpados porque não souberam ouvir e ou interpretar a essência do pensamento que voga nas palavras proferidas.

Nesta abundância de exibições públicas em busca de protagonismo, prestam-se a estimular a criatividade dos cidadãos, que amenizando a tristeza e o desespero desses comportamentos e atitudes, divulgam humorísticas e irónicas anedotas que retratam a postura desses faladores sem contenção reflexiva das palavras.

Neste quadro negro em que vivem milhões de portugueses, permanece ausente a palavra esperança, esperança que esses habituais comunicadores parecem desconhecer, mas que tão necessária é para aliviar a desesperança que reina sem oposição. Se a corda não pode esticar mais porque partiu, é imprescindível unir as linhas estruturais que sobram para reaver a ligação. Porque sem o alento e a confiança, aumenta a solidão, a fome, a miséria e intensifica-se o suicídio. Urge mudar o método. Exige-se humildade nas palavras e nos atos. Impõe-se o respeito para com aqueles que esperam um discurso de seriedade política.

 

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