Opinião – CHUColonização da ortopedia infantil

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DrJorgeSeabra2005Jorge Seabra

Talvez esteja escrito num aleijado ADN de conquista, as vezes que um empertigado império, no fátuo poder dos interesses, quer impor o seu mando a terras e indígenas que julga menores, cravando-lhes as garras e os impostos para os “civilizar” contra vontade.

E as coisas dão para a asneira. Com infantis patetices à D. Sebastião sem chupa-chupas nem manhãs de nevoeiro, desemboca-se nos vietnames perdidos dos invencíveis, vergados pelos que conhecem o sentido da História e do Futuro. No meio de tudo isto há boa gente mal informada que, embalada por trombetas patrióticas, assume interesses alheios ajudando ao enterro sem sequer saber que o faz.

Nessa “vã glória de mandar”, perdem todos na aventura: os rapaces conquistadores que nunca verão outra glória que não seja o travo amargo da derrota, e os que sofrem as suas investidas até os fazerem ajoelhar num qualquer Waterloo aljubarrótico, ganhando a liberdade de decidirem o caminho.

De certa forma, é essa a epopeia do Hospital Pediátrico. Sempre ambicionou maior autonomia e esta sempre lhe foi negada por quem o dizia respeitar e lhe começou a tirar os logotipos, o endereço e o retalhou em departamentos até deixar de ser funcionalmente um Hospital com entidade própria, fatiado em especialidades verticalmente alinhadas, comandadas de uma outra metrópole.

Resistem alguns, como o Serviço de Ortopedia Infantil que já tinha alcançado a independência dos adultos em 1995, tratando desde sempre crianças e adolescentes (até aos 18 anos) com paralisias, osteocondrodisplasias, sindromes polimalformativos, doenças metabólicas, malformações congénitas complexas e outras áreas desconhecidas dos Serviços “normais”, assumindo o padrão organizativo dos centros estrangeiros com maior prestígio internacional. Assim se construiu a riqueza técnica-científica que o colocou na proa da sua área de trabalho, igualando os melhores do mundo desenvolvido, o que todos parecem reconhecer mas que, por esdrúxulas razões e imaginários sinergismos, a todo custo querem mudar.

Indiferente ao protesto das organizações representativas da Ortopedia nacional (Colégio de Ortopedia da Ordem dos Médicos e Secção de Ortopedia Infantil da Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia) e dos que viveram o processo de desenvolvimento da área pediátrica da especialidade, a administração do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra (CHUC) quer acabar com esse polo de excelência, dizendo-lhe, com a ingenuidade da mais pura ignorância, que, com “a vantagem de integração de saberes” (que nem sequer conhece reduzindo tudo à vulgar traumatologia), o Serviço de Ortopedia do Pediátrico terá de deixar de ser como os de Paris, Londres ou Madrid porque, em Coimbra, a organização passará a ser como a dos pontos mais recuados da nação ou de Marrocos e do Mali, onde existe a “moderna” junção de nativos que reúne crianças e adultos num único saco de um só dono, porque esse é o modelo de que gosta e não o que afinal tão boas provas tem dado.

Não o conseguirá ou ficará com a responsabilidade de o ter destruído desrespeitando profissionais e doentes.

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