Opinião – Bota música, Fernanda, bota música?

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02. CONFERENCIA 02 MBVirgílio Caseiro

A música, tal como é domínio público, é uma forma de comunicação universal, polissémica e muito especialmente dirigida à afectividade, embora usando a razão como filtro analista qualitativo.

Se entendida neste âmbito, natural é que fosse um produto de consumo elitista e vocacionada para pequenas, se não pequeníssimas populações intelectuais.

Porém, assim não acontece, e se é verdade que a muitos acompanha como forma assumida de compreensão e análise, para muitos outros é produto de consumo sôfrego, de apaziguamento afectivo, relaxante motor e psicológico, produto consumível diário insubstituível, chegando mesmo a ser droga anestésica de alheamento social e pessoal. E é precisamente dentro desta última valência, talvez a menos pretendida e menos nobre de todas aquelas à música atribuídas, que a minha crónica hoje se acomodou.

Como pessoa profissionalmente ligado aos sons, muitos são os locais e os contextos em que com eles privo e que, sei lá quantas vezes!, sou violentado, porque obrigado a escutar e a permanecer.

Um dia destes tive que fazer um concerto num daqueles muitos lugares onde a disponibilidade democrática obriga a estar, mas a disponibilidade auditiva dos espectadores não entende por bem vinda a chegada… Durante toda a primeira parte do concerto nunca deixei de ouvir, vindo de muito longe, o murmurar ininterrupto de um diálogo indecifrável, passado, certamente, em sala contígua àquela em que estava. Acabada a última obra, caprichei em localizar a fonte sonora tão cronicamente instalada. E lá estava ela: um homem de meia idade, sentado a uma mesa do bar do clube anfitrião, curvado pelo peso do dia de trabalho e pelos graus não suportados dum vinho caprichoso, que em fim de semana teima em se evadir e em simultâneo reduzir quase a zero todo o pecúlio acumulado por cinco dias de contrariedades laborais.

Falava, falava, e pouco se importava que não fosse escutado. Queixava-se de tudo e de nada. De quando em vez uma breve referência vocativa à Emília, a paciente senhora do balcão, que em troca lhe pedia e aconselhava o silêncio e o recato, para não incomodar os “senhores” que estavam no salão. Via-se ser de purga ao sofrimento acumulado todo o seu falar. E era, quando já no limite suportável da dor que gera o soluço e o choro, que invariavelmente lhe soçobrava o apelo à senhora do balcão: “ Bota música, ó Fernanda, bota música!”.

O que se passou e voltaria a passar no salão contíguo, nada lhe dizia. Mas não era música? Talvez… Porém o seu estado psicológico global não o disponibilizava para uma escuta lúdica. Possivelmente o seu estrato cultural também não seria elemento facilitador. No entanto, e por frases entendidas aqui e ali, este homem pertencia à maioria indiscutida que, de quatro em quatro anos, legitima este estado de coisas e nos garante, a todos, de que lado está a razão maioritária!

Ele, ali perdido, precisava da música, sem o saber, como vertente terapêutica e relaxante. Precisava que a música o ajudasse a esquecer e lhe devolvesse o ainda possível da felicidade almejada.

“Bota música, Fernanda, bota música”, pelo menos até termos a certeza que o nosso futuro vai ser muito diferente do que para trás já deixámos…

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