Quando chegar a Primavera?

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Francisco Queirós

Apesar do frio, está um lindo dia de sol. Não fora a temperatura e dir-se-ia chegada a Primavera. Nem tudo é o que parece… Assim, dei por mim a pensar que, cansados de desgraça, de miséria e tristeza e em tempo de deflação do valor da esperança, podia declarar tréguas e só cuidar de assuntos felizes nestas linhas que rabisco. Esquecerei por momentos o milhão e quatrocentos mil desempregados, os jovens despejados no lado de lá da fronteira, os idosos com fome, os 29 por cento de crianças em risco de exclusão. Posso imaginar que vivemos em pesadelo e até crer que acordaremos subitamente e então há sol lá fora e o frio passou. É primavera! Há mesmo uma Constituição na República Portuguesa e houve em Abril, há 39 anos, uma revolução e milhões de sonhos felizes.

Meninas e meninos sonharam com as brincadeiras no pátio da escola, esquecendo ou desconhecendo a fome dos pais e o trabalho infantil. Os jovens sonhavam com o futuro, amores, viagens, empregos. Com um tempo de paz sem fim. Enterrados os mortos da guerra e encaminhados os mutilados para os livros e documentários de história. Os adultos sonhavam com o futuro dos filhos, diferente dos sonhos negados e impossíveis dos seus próprios pais. Sonhar era verbo de frequência obrigatória. Estado de sítio permanente. Colo de mãe. Berço de filho. Beijo e abraço de amantes. Carinho e sorriso de velhinho. O futuro era uma palavra cheia, a estoirar foguetes, a rebentar alegrias, do tamanho do mais que tudo. Era o tempo em que o passado era uma narrativa pretérita. Como convém que o passado seja. O passado dava-se ao respeito e colocava-se no seu lugar. Outrora tinha sido para mais não ser. Outros tempos. Nem por sonho ou pesadelo, artes ou artimanhas do destino ou do mafarrico se atreveria o passado a galgar as fronteiras da memória. Ai dele, se se aventurasse a espreitar de novo o presente e muito menos a ousar pisar o terreno do tempo do futuro. Abril trouxe tempos e modos para os verbos.

A sem-vergonha de um capitalismo em estado de besta ferida confunde tempos e modos dos verbos de acção e escoicinha adjectivos e esventra substantivos que traduzem sentimentos e seres. Nomes como dignidade, humanidade, mulher, jovem, criança e tantos outros são contrafeitos por poderosos, sem que qualquer fiscalização se oponha. Na feira da ladra do mundo há contudo ainda uma esperança que se não salda. Mulheres e Homens que teimam em se apresentar com letras maiúsculas. Sujeitos preparados para retirar da sacola e dos alforges dos corpos verbos de agir, em frases com todos os complementos.

Está sol lá fora. Nas ruas da cidade não há tanto frio assim. Lado a lado, jovens, mulheres e homens aquecem-se nas vontades sorridentes dos outros. Confidenciam olhares transformados em esperança e palavras de protesto. Podem matar quase tudo que o sonho não morre. Podem torturar de miséria e decretar a servidão. A revolta anda por aí, à solta, entre os dedos entrelaçados dos jovens namorados, na mão velhinha que acaricia o neto, nas pessoas que pessoas são. Mulheres e homens que não aguentam! Que aguentar, aguenta quem sonha, não é pena para o inocente condenado.

Há sol nas ruas da cidade. Não escreverei tristezas!

Uma a uma, as letras juntam-se na folha de papel, malandrinhas, namoradeiras, descaradas, atrevidas. Não é que se juntam e dizem – Basta!?

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