Opinião – Uma décima do défice

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Paulo Almeida DRPaulo Almeida

Se não fosse a notícia do retumbante sucesso parisiense da artista Joana Vasconcelos, a semana que passou podia ser apagada. O Partido Socialista deu tiros nos pés, o que não é necessariamente mau para alguns. Outros manifestaram a ideia de taxar cópias privadas, encarecendo os cartões de memória e afins (daqui a nada, sou multado quando estiver a cantar no chuveiro uma qualquer música que saiba de memória). Os advogados também não se entendem por causa dos novos Estatutos e o Bastonário já ameaçou demitir-se ao mesmo tempo que foi convocado o congresso para debater a nova lei que regula as ordens profissionais. Enfim, pior só mesmo a queda livre do Sporting Clube de Portugal.

Antes de bater no fundo, temos um ex-CEO de um Grupo de participações sociais envolvendo as áreas da saúde, hotelaria, retalho automóvel e sistemas de informação, nomeado Secretário de Estado. Mais do que ajudar o Empreendedorismo, a Competitividade e a Inovação, este novo secretário podia encontrar os cerca de 7 mil milhões de euros desaparecidos no BPN. De uma assentada, calava os críticos e ajudava o Gaspar das Finanças a tapar o défice.

Lá bem no fundo, a perder de vista, temos Fernando Ulrich, presidente do BPI. Numa semana em que se soube que há, em média, 4 suicídios por dia em Portugal e que, na cidade de Coimbra, foram contabilizadas cerca de 180 pessoas sem-abrigo, as palavras do presidente de uma instituição que acabava de anunciar lucros de 250 milhões de euros foram insultuosas e mais um sinal para arrepiar caminho. A ver se me explico.

Tenho por assente que muitos dos mais ricos não sabem sequer qual é a cor da luz ao fundo do túnel porque pura e simplesmente nunca nele entraram. Por certo, também não imaginam como se sente uma pessoa que não tem como pagar a água ao fim do mês quando ouve nas notícias que o regresso aos mercados foi um sucesso. Mas não paga dívidas. Não me parece muito difícil de compreender que quem luta por sobreviver não faz caso de uma décima no défice. Deixa esse tipo de felicidade para quem não tem de se preocupar em escavar uma saída. Esta política de asfixiante sobrecarga fiscal e austeridade sem fim está a criar uma enorme e nova legião de pobres em Portugal. Se nada for alterado, só os netos ou bisnetos dos actuais mais ricos dirão um dia que a política de hoje foi um sucesso. Entretanto, os milhões de famílias portuguesas da classe média terão caído (ainda mais) para a pobreza.

Para quem, como eu, desconfia da intervenção do Estado, não pode deixar de sentir que se está a atirar borda fora um mínimo de igualdade de oportunidades e que a discriminação atingiu um novo patamar de perversidade, o da exclusão social em nome de uma décima no défice. A pobreza só pode ser erradicada com a criação de riqueza, com crescimento económico, com empresas e empresários, quanto mais ricos melhor. Infelizmente, tem-se governado o país como se fosse uma abstracção onde não cabem todos os portugueses. Décima após décima, a abstracção do défice substituirá Portugal.

One Comment

  1. TorresVeturibus says:

    "O Partido Socialista deu tiros nos pés….", segundo afirma o mui ilustre Autor deste artigo de opinião. A minha visão da história diz-me algo diferente : o Partido Socialista – para não falar na filial do PCUS em Portugal e associados ideológicos – têm passado desde antes de 1974 a dar tiros no coração de Portugal. Este está, praticamente, moribundo e já tem certidão de óbito deesde 1976 : uma constituição que é uma obra-prima do que não deve ser uma verdadeira Constituição. Além de outras Leis manifestamentes imbecis, como o C.P.Penal qie permite, se os advogados quiserem, dois julgamentos em 1ª. Instância !!! Refiro-me á fase da Instrição e ao julgamento propriamente dito. Para já não referir o descabelado e suoer famoso – pelas piores razões – segredo de justiça. Etc.Etc.Etc.

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