Opinião – Pedagogia do rito das cinzas

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MANUEL AUGUSTO RODRIGUESManuel Augusto Rodrigues

Ao longo da história, foram muitos os testemunhos parenéticos sobre o tema das Cinzas, ritual com uma longa tradição que abre o ciclo da Quaresma. As Cinzas inspiraram vários artistas e escritores como T. S. Eliot que escreveu o livro “Quarta-Feira de Cinzas”.

O Padre António Vieira proferiu para o dia de 4.ª feira de Cinzas três sermões que ficaram célebres. Num dos dois perorados na igreja de Santo António dos Portugueses de Roma, a 15 de Fevereiro de 1673, o grande pregador começou por afirmar: «Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Assim comecei eu o ano passado, quando todos estávamos mais longe da morte; mas hoje, que também estamos todos mais perto dela, importa mais tratar do remédio, que encarecer o perigo. Adiantando pois o mesmo pensamento, e sobre as mesmas palavras, digo, senhores, que duas coisas prega hoje a Igreja a todos os vivos: uma grande, outra maior; uma triste, outra alegre; uma temerosa, outra segura; uma certa e necessária, outra contingente e livre. E que duas coisas são estas? Pó e pó. O pó que somos: “Pulvis es”, e o pó que havemos de ser: “In pulverem reverteris”. As palavras de Vieira são contêm algo de pessimista, a lembrar a filosofia do Eclesiastes com o seu “Vanitas vanitatum”: tudo passa, a vida é breve e as preocupações do homem são inúteis. Apelando à consciência de cada homem, Vieira recorda as injustiças, as desigualdades, a arrogância, o luxo, a ostentação, o prazer e a magnificência dos palácios. A humanidade seria diferente e mais fraterna, se todos aceitassem que já são o pó que hão-de ser um dia. Mesmo sem fé e sem cultura, ninguém ignora que não há distinção de pessoas: todos hão-de ser pó.

Anualmente, ao iniciar-se o tempo da Quaresma, quando estamos a 40 dias da Páscoa – a solenidade por excelência do cristianismo – , a Igreja convida a meditar sobre o sentido da vida.

A pedagogia das cinzas é rica e expressiva: como sinal de fé, pois o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, atravessa a história vivendo na esperança da eternidade e colaborando pela caridade na construção do mundo. O homem é pó, mas é mais do que pó porque o Espírito o anima.

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