Opinião – Lady Tina, o FMI e gastos “preocupantes” na saúde

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Jorge F. Seabra

Inventora, nos longínquos anos oitenta, do famoso slogan “não há alternativa”, Margaret Tatcher, que ficou conhecida como Mrs. TINA (“There Is No Alternative”), teve agora documentos do seu governo tornados públicos.

Lendo a notícia do “The Guardian”( 1 ) ficamos a saber como, na obscuridade dos gabinetes, “Maggie” TINA estudou a forma de tramar o prestigiado serviço público de Saúde (National Health Service – NHS), privatizando-o. Mais recentemente, a raivosa oposição de membros do governo de sua majestade à inclusão do quadro alusivo ao NHS na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos, mostra que os herdeiros de lady TINA não desistem da ideia, enquanto juram hipocritamente, “with us he is secure!”. Tal e qual como papagueiam os seus seguidores cá da nossa Lusitânia.

Empoleirados nos ramos do poder, comentaristas amestrados repetem, até á exaustão, essa lenga-lenga do não há alternativa aos cortes no SNS, mostrando o crescendo inaceitável do seu custo, citando estatísticas que, como alguém disse, são como os biquinis: mostram as partes mais sugestivas, escondendo o essencial.

Na realidade, Portugal gasta muito menos per capita ( 2.728 dólares), do que a maioria dos países economicamente evoluídos (OCDE – 3.268, USA – 8.233 ) e os gastos públicos na Saúde foram apenas de 65,8% contra 72,2% da OCDE (últimos dados conhecidos referentes a 2010 ).( 2 )

E se a despesa total na Saúde ( 10,1%) tem sido um pouco mais elevada que a média Europeia ( 9,5%), a despesa pública (em que só parte são gastos no SNS) é inferior (Portugal – 6,3%; OCDE – 6,6%) e até tem diminuído.

Espantosamente, o recente relatório do FMI, “preocupa-se” com o facto de os 4% do PIB que Portugal gastava em Saúde nos anos oitenta, terem aumentado até aos valores actuais ( 10,1%). O que “esquece”, manipulando as mentes desprevenidas, é que, nesses anos, o país, que acabara de sair de uma ditadura e de uma guerra que lhe consumia 50% da riqueza, era pobre, atrasado e cheio de gente desdentada e precocemente envelhecida, que morria muito ao nascer e tinha uma vida curta.

Foi essa “preocupante” subida dos gastos na Saúde, que permitiu aos portugueses ganharem mais uma década de vida, e fez com que a mortalidade infantil passasse a situar-se entre as mais baixas da Europa e do Mundo. E tudo com pouco dinheiro.

E se dizem que não há alternativas, aqui vai mais uma:

Bastava que o Banco Central Europeu passasse a emprestar a Portugal e aos estados em dificuldades ao mesmo juro ( 0,75%) que cobra à banca privada, para pouparmos, só em três anos, 17.500 milhões de euros. ( 3 )Se fossem todos investidos na Saúde, dariam para pagar toda(!) a despesa (pública e privada) de dois desses anos!

 

 

1 – OEDC Heath Data 2012

2 – “The Guardian” de 28-12-2012

3 – Eugénio Rosa – Estudo “Governo PSD/CDS

e”troika estrangeira” criam uma situação insustentável

ao SNS em 2012”

 

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