Opinião – Foco nas pessoas

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01 NORBERTO PIRESJoaquim Norberto Pires

Portugal é um país que apresenta evidentes sinais de envelhecimento, com taxas de tal forma altas que deveriam estar a fazer soar todos os alarmes. O Census 2011 mostra números muito preocupantes quando se analisa a distribuição etária dos residentes nos vários locais do país. Em muitos lugares, demasiados lugares, pura e simplesmente não há crianças, entre os 0 e os 4 anos, e os jovens são já uma minoria muito significativa, estando a percentagem de idosos (com mais de 65 anos) muito acima dos 50%. Este cenário agrava-se nas zonas de interior, mas é também já um problema das zonas litorais.

Globalmente, o Censos 2011 confirma o fenómeno do duplo envelhecimento, isto é, verifica-se um aumento da população idosa e uma diminuição da população jovem o que explica as taxas crescentes de envelhecimento. Os números são claros, 15% da população residente em Portugal encontra-se no grupo etário dos 0 aos 14 anos, enquanto que 19% pertence ao grupo dos mais de 65 anos. O desequilíbrio é evidente e explica o nosso índice de envelhecimento que já se situa nos 129, isto é, por cada 100 jovens existem 129 pessoas idosas (somos o 8º país mais velho do mundo e o país da União Europeia cuja população está a envelhecer mais depressa). A distribuição pelo país do índice de envelhecimento não é uniforme, mas os locais mais envelhecidos são o Centro de Portugal ( 164 idosos por cada 100 jovens) e o Alentejo ( 179 idosos por cada 100 jovens). Para terem uma dimensão do problema em números de pessoas, Portugal perdeu, deste o 25 de Abril, mais de um milhão de jovens ( 0-14 anos) e ganhou perto de um milhão de idosos (mais de 65 anos). São números impressionantes e que colocam desafios muito significativos.

Ao nível das comunidades locais esta realidade exige ponderação e bom-senso, nomeadamente se tivermos em linha de conta a atual situação económica e financeira da generalidade das famílias. Os municípios, pela sua ação de proximidade com as populações, mas também recorrendo a várias mecanismos que têm à sua disposição, e outros que é fundamental que desenvolvam, devem tomar nas suas mãos este problema criando condições para a fixação de pessoas, para que se inverta a tendência da natalidade e se dinamize um conjunto de atividades que gerem valor e ajudem a suportar todas essas ações. Os novos autarcas vão ter de ser capazes de procurar as soluções, os financiamentos e os projetos que permitam que o seu concelho responda a esta realidade, criando condições para que se perceba que aquele é um local dinâmico, que presta auxílio aos que precisam, mas que tem todas as condições para desenvolver uma atividade produtiva, para criar e educar uma família, para usufruir das coisas normais da vida, e que para além disso oferece oportunidades capazes de fazer renascer uma intensa atividade económica. Tudo isto tendo por base as pessoas, a sua cultura e costumes, a terra e as suas tradições, a história e os seus factos e monumentos, os produtos endógenos, as sinergias com terras vizinhas, os investimentos estruturantes e aqueles que têm ainda de ser feitos procurando uma narrativa coerente que seja suporte de toda uma política de atração, de fixação de pessoas e atividade, e de desenvolvimento económico e social. O poder local não é um mero executor, mas antes um local primordial de planeamento e execução de políticas que, pela sua proximidade às populações, são de capital importância para esta tarefa reativar e rejuvenescer um país que há muito, e aparentemente, baixou os braços.

 

(artigo também publicado no re-visto.com)

 

 

 

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