Opinião – Como a água dos rios

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Francisco QueirósFrancisco Queirós

Até quando? Até quando será possível não ver nem ouvir? Até quando é que se pode pensar que o povo aguenta? Até quando é possível continuar a prometer o impossível, arrastando milhões de portugueses para meio século atrás? Que mal fizeram os idosos, já penalizados com reformas e pensões de miséria, para estarem agora a ser condenados a doses reforçadas de mais miséria, revivendo os tempos de uma sardinha para vários? Até quando é possível expulsar multidões de jovens para o estrangeiro? Exportamos ouro e gente. Gente que deveria servir para criar riqueza e não ser expulsa à força.

Há 1 milhão e 400 mil desempregados, a maioria sem subsídio de desemprego. Qual seria o número dos sem-trabalho sem a hemorragia imparável de gentes para o estrangeiro? Os resultados económicos oficiais são pavorosos. O PIB diminui. O túnel cresce mais rápido que as auto-estradas do cavaquismo e não só não vê a luz ao fundo como se teme que o buraco não tenha fim! Num país europeu na segunda década do século XXI são aos milhares os jovens que deixam de estudar. A fome instalou-se. Comer é um luxo. Tomar duas refeições quentes por dia, para milhares de portugueses, é um luxo! Comer tornou-se uma regalia. Um estilo de vida acima das possibilidades! Até quando?

O governo, apaniguados, cada vez menos convictos, servidores e outros que tais ou sofrem de uma espécie de síndrome da orquestra do Titanic, tocam enquanto o navio se afunda ou disfarçam que ainda crêem em soluções da desgraça para a desgraça.

Há, é certo, um punhado cheio de convictos e de entusiastas desta crise. Vingadores, justiceiros implacáveis, que finalmente viram chegar a hora de acertar contas com o 25 de Abril, com a Constituição da República e os direitos nesta consagrados. Onde já se viu, pensam e dizem cada vez mais sem vergonha, saúde para todos, educação para todos, cultura, segurança social, um Estado para todos com órgãos democráticos. Vem daí a sanha contra os serviços públicos ou contra o poder local democrático. Um regedor bastava, um presidente de Câmara nomeado era quanto chegava. Hospitais públicos, sim! Mas para os pobres não morrerem pelas ruas. Serviços elementares, coisa pouca. A qualidade e excelência de serviços à população que se paguem bem pagas!

E o país avança a passadas de gigante para o passado. Inevitável pelo despesismo público de vários anos, ditam. E a ser mesmo assim, perguntemos: quem foi despesista? O reformado, o assalariado por 500 euros? Quem destruiu o tecido produtivo, as pescas, a agricultura, a indústria e para aí semeou auto-estradas?

Entretanto, crescem e aumentarão muito mais, tão certo com a vida e a morte, os protestos. Há quem se incomode com as actuais recepções a membros de governo. E quão lamentável é que o governo do meu país seja visto como colaboracionista de uma troika agressora! Mas quais as causas? Aplaudi-los-ão os que passam fome? Os que vão ter de partir da sua terra mãe ou os que já sentem a dor da distância na saudade por um filho? Os que deixam de estudar, que as propinas são um pesado imposto que somado a despesas de alimentação, alojamento, livros e materiais excluem os não ricos do ensino superior? Todos os que já quase não sobrevivem?

Como podem os portugueses respeitar um governo que não se dá, nem por um pouco, ao respeito? Um governo que se comporta como uma agência de representação dos grandes mercados financeiros e do governo alemão? Um governo que não vê nem ouve o seu povo. Povo que se sente mal tratado por invasores externos e colaboradores internos.

Mas um povo, deviam saber, é como a água dos rios, rompe caminhos e rasga montanhas.

 

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