Opinião – Cavalo Azul: do sonho à realidade

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MÁRIO NUNESMário Nunes

O sonho, a fantasia, a evasão, a liberdade, a solidariedade, o amor… estão em cada um de nós, simbolizados no Cavalo Azul, um projecto relevante agarrado pela Associação de Famílias Solidárias com Deficiência, e que começou a animar-se, mais solidamente, na passada semana. Um Cavalo Azul que abraça, também, a amizade, a diferença, a fraternidade, a entrega aos outros, numa doação que deve praticar-se no direito à diferença, na sua aceitação e no apoio a um viver igual na dignidade. Valores que vivem em cada um de nós e que devem obrigar-nos a reflectir, a entender a sua dimensão social, económica, cultural, familiar, a empreender acções de colaboração, de resposta, aos problemas da sociedade, aos problemas que são, também, nossos, não somente dos outros, daqueles que os possuem e que os têm de enfrentar e solucionar.

A AFSD nasceu vigorosa no empenho dos seus promotores, na força inquebrantável dos marcados ou não pela dureza da vida, pelas circunstâncias a que são alheios, liderados pela incansável Drª. Maria Prazeres Quinta, mãe do nosso conhecido deficiente e articulista, Tiagolas, pessoas sempre apegados à esperança que os acompanha. Homens e mulheres que abraçados à sua cruz, mergulhados na angústia e na auto-conformação, contabilizam redobrada energia e ainda nos surpreendem com a coragem, o sorriso, uma palavra, um carinho, um olhar de amizade, a nós que não alcançamos a profundidade da sua dor e, ao menor percalço, nos julgamos perseguidos pela má sorte. Admiramo-los e estimamo-los porque na sua angústia espelham os mais nobres sentimentos de solidariedade e amor.

Estivemos, e já passaram doze anos, na apresentação pública do projecto. Naquela tarde soubemos que o concelho de Coimbra tinha 7% de deficientes do total da população, que em Portugal existiam cerca de 640.000 deficientes, e que dessa totalidade, 11,2% sofriam de deficiência mental, 23% com outras deficiências e 24% com total paralisia mental. Neste universo de deficiência contavam-se cerca de 180.000 com incapacidade total, dependendo, exclusivamente, de terceiros para viver.

No concelho de Coimbra, com deficiência, registavam-se cerca de novecentos. São números alarmantes que têm nas famílias, muitas vezes, os únicos sustentáculos de auxílio, de carinho, de amor. Os pais, os familiares, os encarregados de os acompanharem têm, ainda, outro sofrimento, quando o peso dos anos começa a chegar, a saúde a minguar e a morte a espreitar. E, questionam: Quem tratará e como, o meu filho, o meu familiar, o meu protegido, quando eu morrer, quando eu precisar, também de ajuda? Quem olha por nós? E, se não tivermos possibilidades económicas e ou financeiras suficientes, como serão a nossa velhice e o futuro do nosso ente querido?

Neste entendimento, diversas famílias abrangidas pela deficiência dos seus familiares, deram as mãos, uniram esforços, elaboraram o projecto e viram no passado dia 10 iniciar a obra, casa onde podem deixar bem entregues os seus deficientes, quando não tiverem saúde ou a fragilidade económica lhes cerceie as suas ambições de dar conforto e amor.

Deixamos o nosso apelo a toda a sociedade, pois o investimento ronda um milhão de euros e faltam 300.000. Que a nossa resposta encontre no livro do Génesis, o “leit-motif” para o nosso auxílio: “que fizeste ao teu irmão?”.

 

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