Opinião – Arquivos perdidos

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Aires DinizAires Antunes Diniz

A história faz-se com história, mas infelizmente muitas entidades não têm com os seus arquivos o cuidado necessário para que esta possa um dia fazer-se. Perde-se assim muita informação que permitiria, no caso das escolas, descrever processos pedagógicos, em particular os que refletem esforços bem-sucedidos de inovação. Perde-se desta forma, muito saber de experiência feito. Infelizmente, a Parque Escolar irrompeu pelas escolas sem sensibilidade, sem técnica e sem senso pedagógico. Com ela vieram arquitetos sem qualidade, gente que até decidiu deitar fora arquivos e património escolar, havendo até alguns que tentaram hipocritamente dizer que nada tinham a ver com tanta incompetência arrogante. Dizem-me com evidente mal-estar.

No que sobrou numa escola, encontrei há dias no arquivo a referência a um ofício recebido “para que o prof. José Júlio Bettencourt Rodrigues, envie ½ folha de papel selado e 12$50 em estampilhas” de uma entidade, que em 27 de Outubro de 1945, enviou a contagem de tempo de serviço prestado por este professor.1 Antes tinha procurado esta informação na escola que há 66 anos era tão pronta na resposta, mas disseram-me num dia que tinha havido uma inundação e noutro dia um incêndio. É só uma desculpa que se repete num e noutro lado do Atlântico. Descobri num congresso.

Fica assim o país mais pobre, mas alguns ficam mais abonados e, quando alguém nota que algo correu mal, há logo uma incapacidade geral das entidades de atalhar o mal e tudo se vai esquecendo, permitindo a impunidade geral.

Nesta escola onde fui feliz, umas alunas com quem conversei, disseram-me que iam para Economia para aprenderem a roubar. Fiquei estarrecido pois a principal e essencial qualidade de um contabilista/economista é a honestidade. No dia seguinte, confirmando esta ideia ingénua mas perversa, encontrei num jornal de Coimbra notícias sobre um economista, que tinha burlado diversos clientes do Banco onde trabalhava, mais umas notícias sobre abuso de poder por parte de uns gestores e ainda uma entrevista encenada para lavar da imagem de um homem há muito desaparecido das bocas do mundo, mas que tem um passado pouco recomendável. Mostrando uma estranha recorrência, há poucos dias um senhor fez-se passar por economista. Andava também um secretário de estado a reescrever a sua biografia para ser aceitável.

Implica esta loucura que nas escolas se faça a revalorização da moral e da ética, valorizando percursos profissionais pautados por uma honesta competência, fundamentados em arquivos que o comprovem.

Só assim o país se pode desenvolver sustentadamente. Sei. Sabemos.

 

 

1 Arquivo da Escola Secundária Rodrigues de Freitas, Registo de Requerimentos e correspondência recebida, 1939-1948, documento n.º 605, entrado a 22 de Outubro de 1945 e enviado a 20 de Outubro desse ano e documento n.º 616 entrado a 30 de Outubro e enviado em 27 de Outubro, os dois da Escola de Regentes Agrícolas de Coimbra

 

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