Opinião – Vida nova

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Francisco QueirósFrancisco Queirós

Ano novo, vida nova! Os preços a subirem. Os rendimentos a esvaírem-se. Os empregos a rarearem, enquanto desempregado se torna ocupação nacional. Os mais jovens, e outros que nem tanto, a partirem – sina ressuscitada de um povo salta-fronteiras, semeador de saudades. A fome a invadir lares, ainda que haja quem lhe chame “carências alimentares”, primeiro de mansinho, depois de supetão até doer no corpo todo. E por todo o lado se contam as moedas, também estas estrangeiras, ou pelo menos cada vez mais estranhas aos bolsos dos indígenas. Pelas ruas têm voado gritos de revolta que quiromantes, cartomantes, adivinhos, videntes, bruxos e afins desconfiam que engrossarão por estes dias. Fácil aposta! Por toda a parte reina a desesperança, sementes de revolta e raiva.

Entretanto um presidente em noite de votos e ensejos declara solenemente que tem dúvidas sobre a justiça na repartição de sacrifícios! E em tempo de dúvida presidencial, enquanto a crise alastra como pandemia, um certo governante com responsabilidades na saúde dos residentes apela a que estes sejam comedidos na doença, gastem menos das maleitas. Afinal, andou um povo inteiro a adoecer acima das suas possibilidades. Contentava-se o Zé com uma constipação? Não, ele era abusar das pneumonias! A Maria não podia ficar-se apenas por uma gripezita? Nada disso, havia de gastar uma septicemia! Podias ter dermatite seborreica? Mas não! Tinhas de ter um carcinoma! Povo este com a mania das grandezas! Deitou-se a perder! Agora tem o que merece. Benditos senhores da troika! Louvada senhora Merkel! Para sempre sejam louvados os mercados e os banqueiros! Em boa hora acudiram a um povo destrambelhado, completamente transviado para caminhos da perdição!

Ano novo, vida nova. Um presidente com dúvidas sobre a justiça na repartição dos sacrifícios e um primeiro-ministro que como o outro nunca, ou raramente, se engana e respeita muito o sofrimento dos outros. Ele e a Laura. Afogado no sofrimento do país, vai estudando lições de diplomacia. Entre paragens e inaugurações eivadas de apupos e “vai-te emboras”, medita nas lições da diplomacia de Salazar, obra de estudo, manual de viajante maltratado que não escapou à objectiva do fotojornalista. Salazar tem muito a ensinar. Há muito para Pedro aprender.

Ano novo, vida nova. “Que não seja assim tão mau! Que haja saúde, pelo menos! Olhe, entre mortos e feridos… – o presidente tem dúvidas sobre a justiça na repartição dos sacrifícios – alguém há-de escapar.”

Ano novo, vida nova. Mas é possível. Um outro caminho. Possível e necessário. Faço votos! E confio.

 

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