Opinião – Um país a arder

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Francisco QueirósFrancisco Queirós

No final da tarde de domingo saiu de casa, deixando atrás de si chamas que o próprio ateou na casa onde vivia. Enquanto o fogo consumia os parcos haveres até se propagar para habitações vizinhas, o indivíduo assistia calmamente ao desafio de futebol entre o Benfica e o Porto. Desempregado com 54 anos já não será a primeira vez que ateia fogos, agora fê-lo à própria residência antes de sair para ir ver a bola na televisão do café, já que em casa não tem luz, cortada por falta de pagamento de várias facturas. O desempregado da Lousã afirmou à polícia que ateou fogo à sua casa apenas para chamar a atenção para o abandono social e as carências afectivas e económicas em que vive. Quer-me parecer que o terá dito numa linguagem mais simples, aqui traduzida para “português de relatório” pelas autoridades. “Estou farto desta m…Cansado da miséria e da solidão! Talvez alguém agora se lembre de mim”.

Esta é, podia ser, uma história vulgar. Não fosse o homem atear fogo à sua própria habitação e o fogo que o consome e destrói passaria sem testemunhas e sem registo, transformando-o em mais um farrapo que vai sobrevivendo, sem préstimo, condenado ao desemprego, à miséria e à ausência de perspectivas de vida, sem esperança, a uma velhice largamente antecipada. Como este homem sem nome há muitos. Mulheres e homens condenados a rendimentos de miséria e à solidão que corrói, que arde mais que as chamas do fogo real. Dramas de idosos, mas também cada vez mais de jovens.

A vida não se retrata em estatísticas. Ainda assim, de acordo com os números oficiais do IEFP, manifestamente abaixo dos números reais, o desemprego no concelho de Coimbra atingia 8745 indivíduos em Novembro de 2012. Em igual período de 2011, havia 6781 desempregados, o que revela um aumento de cerca de 2000 indivíduos, quase 30% a mais. A agravar a situação, verifica-se um aumento considerável dos desempregados de longa duração, muitos dos quais já não auferem subsídio, estes são agora 3060, eram 2106 em 2011, o que representa um aumento de quase 50% e representam cerca de 30% do total de desempregados. Constata-se que num país onde ainda há analfabetismo e o nível de escolaridade e de acesso à cultura é inferior a outros países europeus que os desempregados licenciados ou com habilitações superiores são agora 2232, quase um quarto do total e que os indivíduos desempregados com o ensino secundário são 2363, perfazendo estes dois grupos de nível de escolaridade ( 4595 ) mais de metade dos desempregados do concelho de Coimbra.

Entretanto milhares de jovens abandonam o país. Mulheres e homens, jovens ou não, ardem lentamente numa combustão que se propaga. O homem de 54 anos, sem nome, desempregado, residente na Lousã, ateou fogo à própria casa. Pelo país fora há muitos milhares de fogos. O melhor de um país a arder num inverno de grande descontentamento.

 

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