Opinião – O caso Damião

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ReadImageJ. Pedroso de Lima

Aquilo que Damião Augusto dos Santos, escrivão de Direito e proprietário de terras no Baixo Mondego escreveu antes de pôr termo à vida, não podia deixar de espantar os seus familiares e amigos e, muito em particular a esposa, com quem tinha tido um casamento serenamente bem sucedido.

Dizia Damião dos Santos naquilo que seria o seu último acto de escrita, que, ao ler por acaso o perfil psicológico de Samuel Ressing, encontrou incríveis semelhanças com a sua pessoa. Só que Samuel Ressing era um pacífico pai de família do Alabama que, um dia, sem qualquer explicação, matou indiscriminadamente três pessoas, antes de se suicidar. Damião, ao aprofundar o seu estudo sobre Ressing, cada vez se convenceu mais da quasi identidade nas experiências e nas vidas, que existia entre ambos.

A convicção de que, um dia qualquer, iria também arranjar uma arma e executar pessoas antes de se matar, cedo começou a atormentar o seu espírito.

Lutou fortemente, no início, contra tal ideia, mas a sensação de inevitabilidade tornou-se tão intensa que decidiu aceitá-la e inventar uma estratégia. Se o momento chegasse, ele avançaria sim, mas inverteria a ordem das execuções: seria ele o primeiro.

Não lhe pareceu que isso prejudicasse fosse quem fosse, nem que estivesse contra o seu próprio sentir, pois as vítimas de Ressing, segundo o que se apurou, não tinham qualquer tipo de relacionamento com ele. Deste modo, a ordem das execuções não devia interessar e ele, assim como Ressing, só estaria em acção enquanto lhe apetecesse.

Viveu dois anos na espectativa e, quando a certeza da próximidade se instalou, escreveu a carta cujo fragmento referimos acima. Foi nessa altura que arranjou uma arma por processos que se desconhecem, mas que, pela certa, não foram os mais legais.

Os acontecimentos trágicos desenrolaram-se como no caso Ressing, mas só no início.

Damião entrou numa repartição onde não conhecia ninguém com a sua arma em punho e, para pavor e alívio dos presentes, apontou à sua própria cabeça, disparou e ali ficou. A ordem de execução foi, assim, decisiva.

O Presidente do Tribunal nas palavras fortes que pronunciou, na cerimónia fúnebre onde compareceu constrangido, referiu “a enorme coragem que Damião dos Santos demonstrou na luta contra os demónios que eram a sua própria doença”.

Numa análise deste drama pensei que a oportunidade ou a ordem de ocorrência dos acontecimentos, pode ter uma importância vital em muitas situações e que, por vezes, pode ser inteligentemente controlada. Mesmo doente, foi o que o Damião fez.

Apesar de tal controlo ser só raramente possível é, por vezes, muito úil.

No caso das Lojas de Saber, por exemplo, tenta alterar -se a ordem da anulação da experiência e conhecimentos profissionais, durante o envellhecimento, de um modo inteligente e construtivo, salvando também alguma coisa. Aqui, a doença está no sistema de reforma que possuimos.

One Comment

  1. António A. Luis says:

    Coitado do coitado. Suicidio á portuguesa.

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