Opinião – Imagens negativas na Alta de Coimbra

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MÁRIO NUNESMário Nunes

Desde 1987 que Coimbra anseia ser promovida a Património da Humanidade. Embora tivessem havido, anteriormente, mais duas sugestões, mas de amplitude restrita, foram os Encontros sobre a Alta ( 1987 e 1994 ) e as publicações editadas, então, e que receberam as dezenas de textos de especialistas das várias áreas das artes, das letras, das ciências, da cultura popular e da religião, numa iniciativa e organização do GAAC, que se radiografaram as riquezas existentes naquele espaço da cidade e que sustentaram e sustentam, hoje, a candidatura de Coimbra ao almejado galardão. Encontros que agitaram a urbe, a região, o país e até a Assembleia da República. Neles se debateram as razões de Coimbra ser capital da cultura e se elaboraram as conclusões que registavam aquilo que era necessário executar para recuperar e salvaguardar o património, algum em extinção e outro muito mal tratado. Criou-se, inclusive, o Gabinete para o Centro Histórico e uma Associação específica para manter o alerta, a ADAC. Por isso, será sempre útil recordar aos “esquecidos” destas jornadas, que releiam os livros “Alta de Coimbra” e “Alta de Coimbra: Que futuro para o passado?”, onde podem rever algum conhecimento e ficarem melhor informados.

Regularmente, vamos à Alta e observamos a evolução dos espaços arquitetónicos e verdes, recolhendo elementos que permitem confrontarmos o atual estado da Alta e o existente há 25 anos. Notamos francas melhorias, mas permanecem, ainda, nódoas bolorentas que maculam a realidade e que permanecem, aviltando o desejado. Atentados, autênticas “feridas”, que devem ser eliminadas. Por exemplo, o cidadão que pretenda visitar o património histórico e monumental e utilize o automóvel ou prefira ir a pé, escolhendo, em ambos os casos, passar na rua Castro Matoso que desemboca na Praça João Paulo II, obrigatoriamente se depara com uma imagem negra e desagradável, integrada no Bairro Sousa Pinto e próximo da Junta de Freguesia da Sé Nova: uma casa, em ruína, parcialmente entaipada, paredes a escorrer água, fissuras a provocar desmoronamento e janelas esventradas, oferece um cartão de visitas deplorável. Manifestamente negativo e neste estado há anos! Assemelha-se às casas das nossas aldeias abandonadas no interior desertificado de Portugal.

Ultrapassada esta “nódoa” e já no seio do espaço universitário, eis outra mazela. O cidadão que regresse pelas ruas de S. Pedro e Guilherme Alves Moreira, obrigatoriamente se interroga: estes tapumes metálicos o que escondem? Se questionar alguém que conheça a Alta, fica a saber que resguardam e defendem do perigo de atingir o transeunte, as ruínas de um monumento do século XVI, o Colégio da Trindade, propriedade da Universidade e que aguarda há anos ser transformado em Instituição de âmbito europeu, mas continua a aguardar melhores dias, apesar das “palavras” que já proporcionou a algumas entidades. Logo, o visitante entra com uma imagem degradante e sai com outra semelhante. Duas fotografias indesejáveis de um espaço candidato a património mundial.

E, ficamos, hoje, por estes dois atentados. Desleixo, insensibilidade, incúria, falta de verba, falta de legislação para agir, deixar correr o tempo, ausência de observação dos responsáveis? Porém, adiantamos: há duas instituições que, supomos, têm de atuar em conformidade: Universidade e Câmara Municipal.

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