Opinião – Igreja de Válega é invulgar

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MÁRIO NUNESMário Nunes

Viajar constitui, desde jovem, um “vício” enraizado pelo meu pai, que nos levou a sermos “andarilhos” no país e em parte do mundo, e nos proporcionou conhecer riquezas culturais incomensuráveis, que a par dos valores sociais, religiosos e tradicionais, nos deu “informações” e conhecimentos que ajudaram a moldar a nossa formação e a incutir o sentimento de defesa e divulgação do património cultural e natural.

Recentemente, um amigo, Dr. David Duarte, enviou-nos um filme sobre a igreja de Válega, concelho de Ovar, próximo da antiga estrada que se dirige ao Porto, filme que nos estimulou a encetar mais uma viagem. E, valeu a pena. Encontrámos um templo que merece ser visitado pela originalidade do revestimento das suas paredes exteriores e interiores, em painéis de azulejo, historiados e sustentados em motivos religiosos, maioritariamente da fábrica Aleluia de Aveiro, e pela monumentalidade do seu acervo pictórico, escultórico e de mobiliário. Uma jóia arquitetónica que remonta aos meados do século XVIII (início da construção em 1746 ), com imagens de reconhecido valor artístico dos séculos XVII e XVIII, algumas da autoria do escultor Fernandes Caldas, e com excelentes vitrais da autoria do madrileno S. Quadrado.

Recuando no tempo podemos imaginar a fundação de Válega nos inícios do século XII (o primeiro documento data de 1102 ). O nome batisa, também, o rio, e resulta do étimo do latim vulgar “vallica”, equivalente a pequeno vale. E, conhecendo a sua situação geográfica acatamos a designação que lhe foi dada, pois o território envolvente é um terreno plano rico para a agricultura. Logo, este bem natural foi incentivo para a fixação do homem acrescido da proximidade da estrada que foi principal no caminho do norte, desde a época medieval. Tornou-se um centro habitacional importante. Sede de freguesia e tendo por orago Nossa Senhora do Amparo, motivou que a nobreza cobiçasse aquele território e a burguesia o usufruísse, também. E, desta situação privilegiada, Válega cresceu e enriqueceu-se.

O visitante ao chegar à igreja fica surpreso pelo cenário magnífico que lhe está reservado. A fachada e a torre lateral estão preenchidas com policromos painéis de azulejos da autoria de Januário Godinho, alusivos sobretudo a passagens do Novo Testamento e a santos. Datados de 1959/60 foram encomendados pelo comendador da Ordem de Benemerência, António Maria Augusto da Silva. Um património extraordinário. A porta principal, almofadada, indicia a beleza que espera, também, o visitante ao entrar no templo. Os azulejos mantém a beleza exterior e coroam no altar da capela-mor com o grandioso painel azulejar da oficina de Jorge Colaço e da fábrica Lusitânia de Lisboa. O teto em caixotões de madeira exótica, a pia batismal do século XVI em pedra de Ançã e com tampa de ferro forjado, as imagens dos altares de expressiva dimensão e beleza e o retábulo principal do século XVIII oferecem, neste templo de ampla nave, uma riqueza original, invulgar e autêntica maravilha religiosa. O labor artístico que se desprende dos seus elementos decorativos encanta e derrama agradável reflexão.

Habituados que estamos a contemplar, humildes, grandes e sumptuosas igrejas, entendemos que a igreja de Válega, numa zona rural do país, prende o visitante pela riqueza ornamental em azulejo e pela pedagogia que brota das pinturas neles desenhadas. Um património a visitar.

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