Opinião – Foco nas equipas

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01 NORBERTO PIRESJoaquim Norberto Pires

Em Portugal personalizam-se demais as coisas e há uma irritante prática de colocar o foco nas pessoas que estão no topo da hierarquia, valorizando-as em excesso, assumindo como verdadeiras ideias autoritárias. É uma pena porque esta é uma prática que está totalmente errada e afastada da realidade das coisas, o que talvez explique a situação em que vivemos. As lideranças de sucesso são aquelas que implementam e conduzem políticas que incentivam os membros de uma organização a dedicar o melhor do seu tempo e esforço nas ações coordenadas para objectivos comuns, os quais são, necessariamente, colectivos. Quem for capaz de exercer esse tipo de liderança, formando equipas, distribuindo funções e competências, delegando responsabilidades e exigindo dedicação e trabalho, será um líder efectivo, apesar de em muitas situações ser considerado um líder fraco. Confundimos muito frequentemente o papel de mandar e liderar, com o abuso de poder e com o autoritarismo, o que talvez esteja na base dos fracos resultados de muitas das nossas organizações públicas, e explique a sensação que todos temos de que progredimos pouco como país e como povo, apesar do tempo e do dinheiro.

Na verdade, as lideranças medem-se pelos resultados de médio e longo prazo, pelas transformações que foram capazes de promover, pela sustentabilidade das suas iniciativas, pela preocupação que têm em estar a par dos problemas da sua organização e pelas ideias que defendem para o futuro. E isso só se consegue com equipas multidisciplinares bem organizadas, que partilham um conjunto de objectivos comuns: um programa. Mas o foco deve ser sempre colocado nas equipas e na sua orgânica, bem como na experiência do líder na criação, gestão e coordenação de equipas, e nos resultados obtidos. São equipas fortes, lideradas por pessoas conscientes do ato de mandar, que são capazes de olhar para o passado e aprender com ele, que percebem o presente e identificam os seus problemas, e são capazes de desenhar os caminhos do futuro, sabendo bem ao que conduzem, e portanto, estão conscientes das opções a tomar.

O que vejo na vida pública e na forma como está organizado o Estado é muito distinto do que acabei de enunciar. A competência é muitas vezes substituída ou desmerecida, colocando a primazia em critérios de filiação partidária, orientação política e afinidade/amizade pessoal. A capacidade de trabalhar em equipa, os conhecimentos específicos e a capacidade de organização e gestão do tempo, tão essenciais nas organizações modernas, são desprezadas e menorizadas, não constituindo, como deviam, pontos essenciais da ponderação dos “líderes” ou candidatos a líderes. A experiência em funções, as redes de contactos criadas e as sinergias desenvolvidas não são, geralmente, valorizadas, perdendo-se por incompetência e irresponsabilidade de quem as deveria acarinhar como factores essenciais de sucesso. Em consequência, passamos a vida a inventar a roda, sem perceber que o futuro se constrói sobre bases sólidas, tendo a capacidade de ver o que de positivo se fez no passado, mas também a coragem, a inteligência e a responsabilidade de o valorizar como forma de potenciar o futuro.

Naquilo que faço procuro colocar o foco num conjunto de objectivos que seja entendido por todos como colectivo, na organização e valorização de equipas, na gestão descentralizada com partilha de tarefas e responsabilidades, na seriedade e honestidade, e numa permanente e muito rigorosa avaliação de resultados. O tempo faz inexoravelmente a tarefa de remover a espuma dos dias.

 

(artigo também publicado no re-visto.com)

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