Opinião – Carta aberta a um presidente qualquer na UE

Posted by

JULIO MARQUES MOTA

Carta aberta a um Presidente qualquer na União Europeia, a François Hollande, o seu primeiro destinatário a quem terá sido entregue e em que, talvez, Cavaco Silva possa vir a ser o segundo, se a quiser receber e ler. Adaptação mínima de uma carta de Jean-Luc Schaffhauser antigo Délégué Général de CAPEC, presidente da Academia Europeia e enviada a François Hollande.
Senhor Presidente Aníbal Cavaco Silva
Senhor Presidente, combine-se rigor e recuperação económica com o aumento do poder de compra e do investimento
Senhor Presidente, a observação de países que decidiram reduzir rapidamente o seu défice orçamental mostra-nos uma diminuição significativa do seu crescimento económico. A média do multiplicador orçamental (efeito da política orçamental sobre a actividade real) na zona euro foi de 1,8 pontos. Significa pois que por cada ponto de poupança realizada no orçamento na zona euro teremos a perda de 1,8 do PIB. A França, por exemplo, está abaixo desta média, por causa dos os considerados estabilizadores automáticos, por causa dos seus amortecedores sociais, Portugal estará acima pela razão inversa e o Governa português cansa-se a tentar acabar com o que destes amortecedores nos resta em Portugal], mas a França fá-lo também à custa de um maior défice comercial e orçamental, a subirem, na zona euro.
O país deve evitar esta espiral recessiva que é já claramente vista nos outros países da zona euro [em particular nos países do Sul como é o caso em Portugal]. O crescimento baixa pela aplicação da austeridade orçamental. Sem desvalorização possível, sem federalismo orçamental, sem transferências financeiras cooperativas (em investimentos rentáveis por exemplo), a baixa dos salários torna-se a única variável de ajustamento para reduzir a necessidade de financiamento externo do país. A baixa dos salários, por seu lado, acentua, em seguida, a redução de crescimento devido à baixa imposta ao orçamento. Esta política de austeridade também faz baixar os investimentos produtivos, porque investir para quê quando a procura interna está a descer ou a estagnar, quando ela representa cerca de 70% da procura global? As condições de austeridade em conjunto em diversos países da Europa acentuam, em seguida, esta observação pelo acumular de efeitos recessivos que assim se introduzem e as exportações intra-europeias diminuem. A procura de crescimento nos mercados emergentes é uma miragem perfeita : todos os países europeus, com a Alemanha incluída, estão actualmente deficitários nas suas relações com estes países, especialmente com a China.
As reduções na procura e no investimento estão pois a reduzir as receitas orçamentais devido à recessão e em proporções que podem ser bem maiores do que as economias orçamentais realizadas. É a política ubesca, grotesca, que agora conhecemos , imposta primeiramente por Angela Merkel, seguida pelos outros Estados europeus e sem projecto alternativo pela parte da França, é a política orquestrada pela Comissão Europeia na sua versão da Europa virada apenas para o mercado, com o progressivo abandono da economia social de mercado.
Neste contexto, os lucros das empresas aumentaram devido à rigidez dos preços, mas a oferta não se torna mais competitiva. Os novos lucros não são reinvestidos no aparelho produtivo, precisamente por causa da baixa da procura [provocada pelas políticas de austeridade impostas] ; esses lucros servem para a especulação ou são deslocalizados.
Todos os países europeus estão a ficar mais pobres por esta política de austeridade insensata e irreflectida, excepto algumas multinacionais e o sistema financeiro que sempre tiram as suas castanhas do lume sem se queimarem. Os responsáveis pela crise financeira enriquecem-se com a crise que eles mesmos têm provocado devido a suas práticas sistemáticas de deslocalização e de optimização fiscal, [devido à sua utilização também de paraísos fiscais, mas não só]. Esta procura constante do máximo lucro a curto prazo, faz com que o Ocidente entre numa situação caracterizada pela economia do endividamento e da crise financeira (…).

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.