Opinião – A necessidade é mestra da vida

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ReadImageJoão José Pedroso de Lima

No ano lectivo de 1974-75, após a revolução de 25 de Abril, não entraram alunos nas Universidades Portuguesas.

No ano lectivo de 1975-76 havia mais de oitocentos alunos candidatos ao primeiro ano do Curso da Faculdade de Medicina de Coimbra. Este número estava muito acima das capacidades da Faculdade, pelo menos para funcionamento nos moldes tradicionais.

A solução para se administrar um ensino aceitável, com tantos alunos, parecia ser a instalação de um sistema de televisão, em circuito fechado, com um conjunto de anfiteatros em cadeia. Os orçamentos para efectivação de tal sistema por firmas comerciais, corresponderam a propostas com custos impensáveis para a Faculdade de Medicina.

Foi então perguntado ao autor deste texto, que era então investigador no Laboratório de Radioisótopos da Faculdade, nessa altura já doutorado, se não seria capaz de montar o sistema por um custo mais aceitável. Estávamos em Junho de 1975 e tudo teria de estar pronto, no máximo, até meados de Outubro.

Apesar de ter experiência em electrónica nuclear, não tinha qualquer experiência em televisão, quer técnica, quer operacional, mas aceitei. Foram férias frenéticas. Estudar televisão, desenhar, mandar construir e colocar os suportes para os televisores dos anfiteatros, estender centenas de metros de cabo, desenvolver as condições para a gravação com várias câmaras, etc., etc.

Com alguma sorte conseguiu-se arranjar equipamento a preto e branco, em segunda mão, a preços excelentes, através da firma que estava a iniciar a montagem da televisão em Angola e fora forçada a regressar ao continente, após a revolução. O Ministério da Edução cedeu, a título de empréstimo, diversos conjuntos televisor/gravador.

Com o extraordinário apoio de funcionários da Faculdade e de alguns alunos do Curso de Medicina e com um custo pouco mais de um décimo dos preços comerciais, conseguimos ter pronto a funcionar, em meados de Outubro de 1975, um estúdio e cinco anfiteatros ligados em cadeia, com dois ou três televisores, conforme a dimensão e com intercomunicação sonora.

Pôde assim começar o ano lectivo sem maiores sobressaltos. As aulas eram gravadas em vídeo e podiam ser vistas de novo em quatro salas destinadas a revisão de gravações, desde que pedidas por grupos de, pelo menos, 5 alunos. O curso, com características curriculares substancialmente diferentes do tradicional, apesar da grande qualidade, não suportou nem os ventos da história, nem a orientação política da Direcção da Faculdade que o promoveu.

O sistema permitiu efectivar, de modo exemplar, o ensino durante aquilo que se chamou o Ciclo Básico das Ciências Biomédicas, mas só foi aplicado integralmente ao primeiro curso, após a revolução. Pena foi que os tempos em que estes acontecimentos ocorreram tenham levado a um final sem grande glória para o projecto e não tenham permitido aproveitar o que de positivo se aprendeu com a experiência. Com tantas constrições e sem avaliação, qualquer iniciativa cai no esquecimento. Mas aprendi bastante. Sobre trabalho coletivo, sobre televisão… e sobre como é curta a memória…

4 Comments

  1. Eduardo Duarte says:

    Ao ilustre Professor Pedroso de Lima
    Fui, e orgulho-me muito disso, um dos alunos desse ano memorável. Provou-se que era possível, o que foi grande obra.
    Os "materiais" de estudo então produzidos continuaram a ser usados nos anos seguintes, o que demonstrava a sua grande qualidade.
    Muitos desses alunos ocupam hoje lugares e cargos de enorme responsabilidade, com evidente sucesso.
    E, em grande medida, a si o devem.
    Bem haja.
    ED – Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, 1975-1981

  2. António A. Luis says:

    Meu caro e querido Dr. Pedroso de Lima.
    Eu tambem colaborei neste projecto. Lembro-me que lhe sugeri o contacto com o Ministério da Educação na pessoa do Dr. Manuel Espanha que disponibilizou alguns gravadores de video da Philips.
    Tambem eu quando voltei a Moçambique em 1973, instalei em Nampula um estúdio de televisão onde diariamente, faziamos as cópias dos programas da RTP 1 da noite anterior. Depois eram dsitribuidas pelas companhias do exercito no Norte de Moçambique.
    Dois ou três dias depois, tinhamos os nossos soldados, sargentos e oficiais a ver algumas horas de televisão portuguesa.

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