Opinião – 2013 – Convite

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01 NORBERTO PIRESJoaquim Norberto Pires

Entro em 2013 com sentimentos muito distintos. Não consigo atirar para trás uma certa angustia que, de vez em quando, me interrompe os afazeres e me deixa apreensivo e muito alerta. É um sentimento muito desagradável porque, apesar de querer pensar positivo e de achar que podemos resolver os nossos problemas, no fundo sei que as coisas não estão nada bem e há inflexões a fazer e caminhos a alterar. Sinto ainda uma certa urgência, sinónimo de gravidade, que não me deixa sossegado.

Para além disso, desde Setembro deste ano que me apercebi com nitidez, por razões que não vale a pena discutir, da dimensão da miséria escondida na cidade. Vê-se em pequenas coisas, mas que é necessário saber procurar. No número de famílias desestruturadas, com pais e mães que deixam os filhos e a família para 2º plano. Isso tem impacto nas crianças que andam, muitas delas, desorientadas. Isso é muito visível nas escolas onde são frequentes comportamentos com os quais não estávamos habituados até há pouco tempo.

Apercebi-me de pessoas que não têm para comer com regularidade, nomeadamente crianças em ambiente escolar. Apercebi-me de famílias inteiras com a sua vida presa por arames, afundadas em dívidas e em compromissos que não podem manter.

Apercebi-me de como os pensionistas estão a segurar muitas dessas famílias, numa economia familiar que confesso que não sei como pode funcionar. Apercebi-me de comportamentos morais e cívicos inaceitáveis que afetam, mais uma vez, de forma muito especial as crianças e os mais velhos.

Apercebi-me de crianças que não têm materiais escolares e andam sozinhas o dia todo, entregues a si próprias e ao seu bom senso.

Apercebi-me do crescente número de sem-abrigo, do crescente e assustador número de famílias que recorrem, em desespero, às instituições de apoio social para procurar auxílio para comer, pagar pequenas despesas e manter alguma dignidade.

Apercebi-me de novos negócios, que florescem um pouco por todo o lado, em que vender o corpo para conseguir algum rendimento parece ser um motivo válido. Num dos casos, como me foi contado por um amigo, num prédio de luxo, local inimaginável há bem pouco tempo para este tipo de atividades, a fila de carros de alta cilindrada e de pessoas conhecidas da sociedade é enorme: o elevador não para, queixam-se os vizinhos. Crescem estes tipos de negócio bem como todos os outros associados a essas atividades e que têm denominadores comuns: criminalidade, violência e intimidação.

Este é um cenário muito complexo para reforçar recessão e austeridade. Estas coisas precisam de tempo e de ponderação. O risco de colapso social é enorme e pode dar origem a fenómenos que considerávamos ultrapassados e vencidos. Um deles, dominado e contido, é o da criminalidade e da degradação moral e cívica associadas à droga. Existem sinais claros de que estão de novo a florescer ameaçando vitórias passadas e acenando com custos futuros muito elevados.

Nessa perspetiva é altura de todos colocarmos o interesse nacional, e das pessoas, acima de todos os outros interesses. Foi nessa perspetiva que entendi o discurso de ano novo do Presidente da República. Um discurso preocupado e um aviso muito sério a todos os agentes políticos para que se concentrem no interesse nacional. Um convite para que encontrem plataformas de entendimento que permitam evitar uma situação de enorme aperto social e económico. Espero e faço votos de que assim seja entendido.

 

(artigo também publicado no re-visto.com)

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