Opinião – Intempéries no concelho de Pombal

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Narciso Mota

Narciso Mota

Na madrugada do passado sábado, o Concelho de Pombal foi fustigado por uma das maiores intempéries de que há memória. A força da natureza derrubou centenas de árvores, dobrou sinais de trânsito, destruiu telhados, tornou estradas e caminhos intransitáveis, suspendeu comunicações e deixou milhares de pessoas e dezenas de empresas sem água e sem eletricidade.

A nossa primeira preocupação foi a de movimentar os serviços municipais e, com o apoio dos nossos incansáveis 17 Presidentes de Junta de Freguesia, colocar máquinas e equipamentos a trabalhar para acudir as nossas populações, desimpedindo estradas e caminhos, remover árvores caídas sobre edifícios e assegurar que o abastecimento básico de água às populações fosse reposto.

Compreendendo que as nossas obrigações, perante as calamidades imprevistas da natureza, são de atender àqueles que dependem de nós, não podemos deixar de lamentar que a nossa função enquanto autarcas tenha sido limitada, pela falta de preparação nacional para lidar com eventos desta natureza.

Quem, como eu, andou no terreno, motivando, liderando, decidindo e ajudando na resolução das diversas situações de calamidade a que tivemos de atender, notou bem a falta de meios de comunicação fixos e móveis, quer dos operadores privados de telecomunicações e lamentavelmente do próprio SIRESP – Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal.

Notámos também a falta de uma entidade nacional coordenadora na gestão da crise, que liderasse a ação prestimosa dos nossos bombeiros ou das nossas forças de segurança.

Notámos a ausência duma voz amiga e solidária com responsabilidade tutelar, que nos perguntasse se estávamos bem ou se precisávamos de ajuda por parte de quem tem a responsabilidade de governar um território maior que o nosso.

Da nossa parte fizemos o que nos compete fazer. Faltando-nos cumprir o total reabastecimento de água ao concelho por nos faltar a tão necessária energia elétrica que nos permita colocar os nossos equipamentos a funcionar.

Da mesma forma se sentem as famílias do nosso concelho, os Lares de Idosos e os Centros de Dia, bem como centenas de empresas que estão privadas de laborar normalmente condicionadas aos serviços prestados por uma empresa abastecedora de energia que, infelizmente, já não é nossa.

É de lamentar que a EDP tenha manifestado, nestes dias, uma tão profunda impreparação para acudir a situações de emergência nacional. Demonstrou que perdeu a capacidade de resposta às necessidades de abastecimento em tempo de crise, colocando-se hoje a dúvida de como corresponderá para providenciar o abastecimento energético em caso de crise mais grave.

Da mesma forma que terminámos com os nossos guarda-rios e guardas florestais, que providenciavam a manutenção adequada e equilibrada dos nossos rios e florestas, notamos hoje que a EDP delapidou o seu historial de manutenção das redes elétricas assim como a limpeza adequada dos seus corredores florestais. Notamos ainda o desaparecimento dos seus quadros técnicos mais qualificados afetos aos diversos concelhos, por força de reformas antecipadas que os substituíram por jovens quadros sem capacidade de decisão no terreno, completamente dependentes de administrações centralizadas em Lisboa e Porto, que lhes cortam a capacidade de resolução de problemas locais e imediatos.

A EDP por força de estar mais preocupada com mega investimentos no estrangeiro, deixou de ocupar o seu desígnio nacional de parceiro no desenvolvimento económico do nosso país. Um parceiro de quem os nossos empresários dependem para poder laborar, produzir e criar riqueza, mas um parceiro que, pela ineficiência demonstrada neste fim-de-semana, é um parceiro que terá que repensar o seu papel na estratégia de desenvolvimento nacional. Não podemos deixar de enaltecer o trabalho de todas as freguesias na sua disponibilidade total junto das populações. É caricato que estas estruturas autárquicas, que garantem a operacionalidade e manutenção do território local, mantendo um serviço de maior proximidade com os cidadãos, são aquelas que a muito curto prazo irão sofrer remodelações que seriam melhor aplicadas noutras estruturas de poder.

A diferença de atuação entre estes dois patamares daquilo que deveria ser o verdadeiro serviço público de interesse nacional, deve merecer uma profunda reflexão, questionando-nos se em pleno século XXI as atuais opções estratégicas são aquelas que melhor servem o nosso país.

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