Opinião – Fraudes

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Maria Manuel Leitão Marques

Maria Manuel Leitão Marques

É pena que o relatório de uma instituição credibilizada como deve ser o FMI seja envolvido em tanta suspeita. Falo de suspeita e não apenas de críticas às posições nele tomadas. Todos sabemos que a política económica comporta diferentes opções para resolver os mesmos problemas. Seja qual for a opção escolhida ela envolve, por sua vez, o risco de não os resolver. Até aí tudo bem! Sabemos viver assim há muito tempo.

O problema começa quando os dados utilizados são propositadamente desatualizados, como aconteceu na educação, porque os mais recentes não servem a solução que se pretende recomendar, no caso, a preferência pelo sistema privado em detrimento do público. E pior do que isso, quando essa solução parece ter sido plantada, acriticamente, pelo Governo num Relatório assinado pelo FMI. É frequente que este tipo relatórios de instituições internacionais interajam com os governos, ouçam as oposições, escutem especialistas de diversas tendências, tenham em conta a opinião da sociedade civil organizada. Ninguém pense que existem iluminados numa qualquer parte do mundo que conhecem a nossa realidade com a profundidade necessária para poder opinar sobre a reforma do Estado ao fim de algumas semanas de estadia, deixando uma mão cheia de receitas para a executar. Apesar disso, há limites para essa interação. Os limites são os da independência e os da decência. Ora, no caso especifico deste Relatório, no que diz respeito à politica educativa, esse limites parecem ter sido ultrapassados.

Esta situação é bem mais grave do que ter estado na equipa que elaborou o Relatório um tal um professor espanhol, agora acusado de fraude pelo instituto em que trabalha por ter recebido pagamentos indevidos de artigos assinados sob pseudónimo. Apesar disso, que a ser verdade é lamentável, ainda não foi posto em causa o seu curriculum, como aconteceu recentemente numa outra fraude (de sentido oposto) a que assistimos.

Toda esta trapalhada, permite concluir que precisamos de mais trabalho sério, rigoroso, com proposições fundamentadas, cuja credibilidade não se perca numa primeira leitura, desmobilizando qualquer crítica construtiva. Mais trabalho tanto do governo como da sua oposição, reconhecendo ambos que temos um problema para resolver cujo remédio não se compra feito na “farmácia”. Constrói-se no “laboratório” com muita investigação, experimentação, discussão, e à custa fracassos e sucessos. Mesmo que o resultado deste esforço não seja uma solução milagrosa para a reforma do Estado, ele nunca será totalmente desperdiçado.

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