Fio-de-prumo – Metro de Londres e o FMI

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LUÍS PARREIRÃO

Luís Parreirão

O país viveu a última semana amarfanhado por um “estudo técnico “do FMI que supostamente se debruça sobre as funções do Estado, a natureza – qualitativa e quantitativa – da despesa pública, a dimensão dos serviços públicos e o tipo, que não a qualidade, dos serviços que prestam aos cidadãos.

O “estudo ”, à falta de melhores argumentos e de trabalho de campo detalhado, convoca com frequência comparações quantitativas entre a realidade portuguesa e médias, europeias ou da OCDE. Desta forma, e com tal base, conclui invariavelmente pela necessidade/possibilidade “técnica” de diminuir a despesa actual, genericamente atribuível a desperdício, ineficiência ou má gestão.

Talvez fosse mais sério dizer tão só: os senhores não têm dinheiro pelo que não podem fazer despesas. O que é feito é, porventura mal comparado, como se se encomendasse a um dietista uma justificação para os pobres comerem menos, não porque não tenham dinheiro mas porque lhes faz bem.

Acontece que este ainda me parece o menor dos erros. Mais grave é desconsiderar, em absoluto, que nem todos fizemos, fazemos e faremos, ao mesmo tempo, o mesmo percurso!

Exemplifiquemos com um facto histórico também noticiado na passada semana. O Metro de Londres comemorou, a 10 de Janeiro, 150 anos, ou seja, começou a funcionar em 1863. É curioso também saber que, até que em 1959 fosse inaugurado o Metro de Lisboa, foram inaugurados os seguintes: Istambul ( 1875 ); Budapeste ( 1896 ); Boston ( 1897 ); Paris ( 1900 ); Berlim ( 1902 ); Milão ( 1906 ); Buenos Aires ( 1913 );Madrid ( 1919 ) e Moscovo ( 1935 ).

Para quem tenha maior relutância, ou ignorante dificuldade, em valorar factos históricos tão remotos, talvez possa reflectir um pouco sobre os tópicos que de seguida se referem:

Há quarenta anos o país que hoje querem comparar com os países nórdicos no domínio da educação tinha, na sua população, cerca de 40% de analfabetos totais. Os países nórdicos erradicaram o analfabetismo no início do século XX;

O país que tem hoje demasiados servidores públicos, no activo e na reforma, vê aqui reflectida em grande medida uma desproporcionada máquina de guerra que só no início dos anos noventa foi efectivamente extinta, e cinco administrações coloniais integradas há pouco mais de trinta anos;

O país que muitos hoje acusam de se ter hipotecado ao “betão”, só no início do século XXI passou a dispor de uma rede de auto-estradas, enquanto a Alemanha já tinha vários milhares de quilómetros de auto-estrada no início dos anos quarenta.

Alguns dirão que este tipo de referências não explica nada . Não concordo.

Acho que explica tudo, ou quase tudo!

O resto são comportamentos desviantes, individuais ou de grupo, merecedores de censura ética, política ou jurídica.

One Comment

  1. Henrique Costa says:

    Os argumentos indicados são extremamente falaciosos. Se é verdade que o metro de Lisboa foi o 10º no mundo quando Portugal era pior que a 30ª economia e Lisboa uma pequena cidade, então só mostra como a vaidade esteve acima da razão. Sobre as autoestradas basta olhar para 3 sítios, arredores de Lisboa, arredores do Porto e Trás-os-Montes para se constactar como o investimento
    e irracional! Se o autor comparar estes com o investimento rodoviário no distrito de Coimbra, quase inexistente e no Metro Mondego, que como ramal ferroviário já era mais rentável que algumas linhas que foram expandidas do metro de Lisboa, então ainda mais o irracional bem ao de cima! Seja como for o grande problema português até nem é a irracionalidade no investimento mas sim no vício da dependência publica e para isso o relatório não especula com soluções… Agora este artigo… é apenas piégas… e de chorões está este país cheio!

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