Fio-de-prumo: ANA: alienação ou parceria?

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LUÍS PARREIRÃO

Luís Parreirão

Portugal acaba de celebrar o contrato de parceria de maior duração, 50 anos, da sua história económica recente. Com a venda da ANA à empresa francesa VINCI, o Estado Português atribuiu-lhe a concessão da totalidade dos aeroportos portugueses para meio século.

 

Para os que se preocupam apenas com o curto prazo, a discussão andará entre a justeza do encaixe financeiro e a maior, ou menor, opacidade do processo de venda. Infelizmente para mim, já vivi o tempo suficiente para perceber que frequentemente o discurso produzido nestes casos tem mais a ver com a posição relativa do autor do que com a substância do problema…

Por isso, o que me parece especialmente relevante é cuidar de saber se o país sabe o que quer desta parceria. Até porque a VINCI sabe-o seguramente.

Para os mais distantes desta realidade empresarial refira-se que a VINCI é a maior empresa do mundo do sector da construção e obras públicas. Registou em 2011 um volume de negócios de trinta e sete mil milhões de euros. Ou seja, cerca de um quinto do PIB português e superior, p.ex., ao PIB do Luxemburgo.

Além disso é uma empresa secular, presente em mais de cem países, sendo também a empresa que mais factura no continente africano – cerca de dois mil milhões de euros. A sua unidade de concessões, presente em 20 países, é a maior concessionária de auto-estradas em França, onde é responsável por 4385km.

Uma companhia com esta dimensão e este grau de diversificação sabe exactamente o que quer ao comprar a ANA. E certamente quererá: passar para a primeira divisão mundial dos operadores aeroportuários internalizando competências técnicas relevantes; quadruplicar, de uma só vez e sem risco, as suas receitas no sector aeroportuário; aceder a um monopólio de mercado, único na Europa; planear, projectar e gerir uma das maiores e mais complexas obras públicas que a Europa vai ter proximamente – o novo aeroporto de Lisboa, obra com um preço estimado entre os três e os cinco mil milhões de euros; e, last but not the least, aceder mais fácil e naturalmente aos mercados aeroportuários de língua portuguesa nas zonas de crescimento de África e da América latina.

É por tudo isto que o que verdadeiramente me preocupa é se as autoridades portuguesas sabem exactamente o que podem e querem alcançar com esta parceria.

Se temos uma estratégia para os aeroportos do continente que vá além de esperar que os aviões cheguem e partam, envolvendo nisso os responsáveis políticos das comunidades afectadas.

Se a especificidade do território dos Açores, o facto de a Região ter uma companhia aérea, e a sua especial ligação à América do Norte estão devidamente valorizadas, envolvendo nisso o Governo Regional.

Se estamos preparados para aproveitar a dimensão mundial da VINCI para dar uma maior dimensão aos aeroportos portugueses e para fazer da ANA um “porta-aviões” na internacionalização de empresas portuguesas.

A fase decisiva deste contrato só agora começa.

Não tenho dúvidas que a VINCI sabe o que quer. Quanto às autoridades portuguesas apenas sabemos que venderam a ANA por um bom preço a um comprador credível e respeitável. O Estado vendedor fez o que tinha a fazer, o Estado concedente ainda não o sabemos.

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