Uma história de Natal

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 Francisco Queirós

Francisco Queirós

Ela tem trinta e seis anos. Nasceu em África, numa terra de falar português, mas chegou a Coimbra atrás de um sonho de vida melhor e de um canudo de doutora. Por cá reside há vários anos. Foi estudante enquanto conseguiu conciliar estudos com trabalho. Primeiro deixou os estudos para cuidar dos filhos e do seu sustento. Depois deixou de ter trabalho.

Ela tem dois filhos. O mais velho é adolescente, bom aluno, muito bom rapaz, segundo os professores. O pequenino já nasceu cá, tem quatro anos, frequenta o infantário. O pai das crianças, licenciado na área da saúde, partiu. Lá vai ajudando, de vez em quando. Mas vive e trabalha longe, emprego precário, recebe um pequeno ordenado. E as contas não se extinguem. Casa, água, gás, electricidade para pagar todos os meses. As roupas. O infantário do pequenito. E claro, comida. Os filhos almoçam na escola, mas há outras refeições e há os desgraçados fins-de-semana sem fim. “ Agora chegaram as férias, como vou fazer?” perguntou baixinho, tímida, temerosa. Recebia apoio social, o rendimento social de inserção e o abono de família, “mas é tão pouco”. Não consegue pagar as despesas obrigatórias. Deve rendas de casa e teme o despejo. “Tenho pena do senhorio, mas como posso pagar?” Agora cortaram-lhe a água, não tem gás e tem a conta da luz a chegar ao final do prazo de pagamento. “Ainda tenho lá em casa um pouco de arroz e de massa. O pior, o pior mesmo é que agora suspenderam o pagamento dos apoios!” – confessa. Os documentos de autorização de residência caducaram. “Não tinha os 35 euros necessários para os revalidar”. Entretanto, uma alma caridosa emprestou o dinheiro e ela já tratou dos papéis. Mas na segurança social sentenciaram que vai demorar até que lhe sejam atribuídos de novo os apoios sociais. “Lá para o começo do ano”. “Com que vive, agora?” – perguntei. Então ela respondeu, no mais invernoso sussurro que já ouvi: “Agora… agora com nada! Tenho medo que expulsem o meu menino do infantário. A educadora é tão boazinha, mas se eu não posso pagar…tenho medo…”. Que não lhe faziam isso, não pode ser. Vai ver! Há-de arranjar-se qualquer coisa. E por curiosidade e ânsia de animar: “qual é o infantário? Como se chama essa educadora boazinha?” Claro que conhecia! Foi educadora da minha filha – pensei, completamente contagiado pelo sofrimento alheio. Puxa! Mais real não havia para ouvir naquela manhã de quinta-feira em atendimento a munícipes no gabinete de autarca. “Desculpe incomodá-lo assim!” – respirou ela muito baixinho.

Sabe-se lá porquê, talvez para me escapulir da dor alheia, dei então comigo a pensar – que absurdo! – que do presépio a vaca e o burro, expulsos, condenados a emigrar, raptaram o Menino.

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