Opinião – Um país chamado Portugal

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Marisa Matias

Esta semana gravei um debate com um deputado alemão, do grupo dos Liberais, um deputado grego, dos Socialistas, e um economista e professor belga. O facto em si não tem grande relevância, mas as razões das nossas discórdias são elucidativas. Todos defendiam que a combinação perfeita é a que junta a austeridade e o crescimento. Todos menos eu, escusado será dizer. Todos concordavam também com a linha seguida por Passos Coelho e Vítor Gaspar: “a Grécia é um caso à parte”. E todos pareciam concordar numa verdade evidente: “em Portugal está a correr bem!”.

E quais são, afinal, os indicadores de que está a correr bem? Para os meus colegas deputados a reduç

ão da despesa do Estado era um dado positivo. Positivo? Redução da despesa em sectores tão fundamentais como a saúde, a educação, a cultura? “Não” – apressaram-se a responder – “a redução da despesa nos gastos supérfluos do Estado”. Pois, lamentamos, mas o que está a ser cortado são serviços públicos essenciais, aqueles que nos fazem acreditar na garantia que um Estado deve dar aos seus cidadãos de serem todos tratados como iguais. Provando-se falso o argumento da despesa, perguntei: “E que outros indicadores positivos?”. Começou aí o debate. O economista belga explicou-me que o problema não era tanto de défice e de dívida, mas de balanças comerciais. Disse-lhe que até podia concordar com ele nisso. No entanto, a conclusão por ele retirada foi o retrato perfeito da ilusão que é vendida. Segundo ele, a prova de que as medidas da Troika não são assim tão desprovidas de sentido é que a balança comercial portuguesa está mais competitiva, aumentou as exportações e reduziu as importações, o que dá bons sinais para futuro. Retorqui: “mas tem ideia de como é que aumentaram as exportações? Sabe que uma parte desse aumento se deve à baixa dos custos de produção, salários cada vez mais baixos, se deve a fenómenos como a venda de ouro por parte das famílias portuguesas para conseguirem pagar contas? E que a redução das importações é porque estamos pobres, porque não temos dinheiro para consumir? O que é que isto tem de sustentável a longo prazo?”.

Veio o contra-ataque: esse é um dos bons resultados. A crise está a obrigar a eliminar o consumismo nos países do sul, onde ele foi tão cultivado nos últimos anos. Pedi mais uma vez permissão para discordar. De que consumismo é que se fala? Do consumismo de bens de primeira necessidade? É que às famílias portuguesas é o que está a faltar: bens de primeira necessidade.

Anuíram, mas ninguém se comoveu. Não estava à espera que o fizessem. Não é essa, afinal, a imagem oficial de um país bem comportado que o governo português passa para fora de fronteiras? Um governo que também deve achar bem ter-se acabado com o “consumismo” de medicamentos, colocando doentes a ter de escolher entre os que fazem mais falta e os que podem dispensar. Um governo que aceita que se acabe com o “consumismo” de leite em pó, obrigando os pais a darem leite de vaca a bebés de poucos meses com consequências graves para a saúde. Enfim, o “consumismo” de alimentos, que tem como triste imagem as crianças que vão para a escola com fome. Há mesmo uma grande diferença entre a imagem de um país e o país propriamente dito.

One Comment

  1. Justiceiro says:

    Sem comentarios. Falar com essa gente da europa, é a mesma coisa que obrigar um herviboro a ser carnivoro.

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