Opinião – Sem placas para descerrar

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PAULO-VALERIOPaulo Valério

22 de Dezembro de 2007. Os trabalhadores da Ceres rumam à praça 8 de Maio, reclamando a intervenção da câmara para que a histórica unidade cerâmica regresse à laboração. O presidente, Carlos Encarnação, endossa o repto ao governo, a quem “cabe diligenciar” para resolver o assunto. Horas depois, os trabalhadores hão-de regressar a casa frustrados, o executivo municipal seguirá, talvez, para inaugurar um fontanário e o governo, esse, só terá conhecido parte da história. A Ceres fechou, claro.

Agora, não me interessam a Ceres, o dr. Carlos Encarnação ou o governo da época. Para aquilo que nos traz aqui, são apenas mais uma fábrica, mais um autarca, mais um governo. E isso é tanto mais certo quanto a história se terá repetido centenas de vezes, por esse país fora, ao longo dos anos. Em todos os casos, os intervenientes limitaram-se a seguir um guião preestabelecido: as fábricas em Portugal são para fechar; os governos fazem flores com o dinheiro da Europa (que nos empurra para o sector terciário); e os autarcas ocupam-se a inaugurar pelourinhos, licenciar obras de construção civil, patrocinar clubes de futebol e receber os munícipes, uma vez por semana.

Visto a esta distância, este guião poderia bem constar da contracapa de um livro chamado “Como afundar Portugal em três lições”. Olhando hoje para o debate público, podemos dizer que os autarcas são quem está mais longe de rever a sua posição.

Quem se queixa do centralismo, da indiferença de Lisboa face ao resto do país, só com uma grande dose de cinismo (ou ingenuidade) pode endossar para o governo, seja ele qual for, a solução para as suas Ceres. Na Coimbra do século XXI, um autarca que não ande de mão estendida, que apoie os agentes económicos na criação e preservação das suas empresas e que se foque na criação de emprego fará toda a diferença. Não é preciso dinheiro. Basta vontade, inteligência, estratégia e preparação técnica. As obras que interessam, hoje e no futuro, não terão placas para descerrar.

 

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