Opinião – Sei que não vou por aí

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LUIS SANTARINOLuís Santarino

“Nunca tivera tempo para fitar demoradamente as coisas e os seres. E desforrava-me finalmente dessa fome profunda, a seguir maravilhado os passos cautos e soalheiros de uma lagartixa, os trâmites de uma flor a abrir, a caminhada espessa e morosa de uma nuvem”, escreveu Miguel Torga.

Faça-se silêncio. Uma pausa. Prolongue-a. O que vem a seguir não se assemelha. Era melhor!!! Seria um descaramento descarado; quando a alma fala, o coração para!

Acorda. Ainda há tempo. Porque o tempo espera. Por mim? Por ti também! Ergue-te. Eleva os olhos à tua consciência. Estás de bem? Então…fica quieto. Não merecem que te mexas!

Merecem. Merecem sim. Porque como ele, também gosto de comtemplar. Mas os sons que me chegam não são de amor. Parecem ser de loucura e vingança!

Alto aí, caramba! É para parar. Porque muitos, demais até, usam a definição do Professor Doutor Salazar, de política, como a “arte do possível” quando se está no poder e se enfrentam dificuldades! Mas outros, como o Professor Doutor Braga da Cruz, definiu política “como a arte de tornar possível o que é necessário”, quando se está fora do poder, mas exige que se faça mais e melhor.

Arte, neste contexto, não é uma manifestação estética…é habilidade. Não é beleza, não procura o belo, mas também poderia ser se estivesse ao serviço…de serviço!

Ao longo da história da democracia portuguesa ouvi “isto” aos mais furiosos democratas. Porque seria? Porque será? De quem herdaram esta veia?… este dom?

Terá sido porque a dada altura se assemelharam ao Professor Marcello Caetano, que definia poder, “como a faculdade de traçar livremente a sua própria conduta ou de definir a conduta alheia? Ou, dizei aos pobres mortais que, “poder é a faculdade de mandar e a capacidade de se fazer obedecer”?

Ao que chegou a nossa pobre democracia. Pobre, porque no seu âmago cresce um sentimento Estalinista imperial; os que vislumbram para lá do que a vista alcança, e os outros!

O governo do POVO por ele próprio, assente numa humanista luta partidária, nunca esteve tanto em perigo!

A causa, parece, não está no governo nem nas oposições; está em ambos! Os partidos políticos assumem uma prática desajeitada, sem respeito pela totalidade dos militantes e dirigentes. Desejam a “sua própria ditadura” e detestam os homens livres!

Muitos houve que ajoelharam, mais irão ajoelhar, para tentar que lhe “caia na sopa”, umas lentilhas iluminadas por uns quantos favores, porque, “isto de se ser fiel, que não leal”, tem o seu preço!

Pois. Não contem comigo. Enquanto for dono das minhas faculdades, serei livre!

Os partidos deverão voltar a ser um espaço de liberdade, individual e colectiva, onde o conjunto dos seres que dele fazem parte, serão obrigados a esse supremo bem, que é o exercício de pensar!

Winston Churchill tinha razão, quando disse ao jovem deputado do seu partido, que os inimigos estavam a seu lado; são os que usam o mesmo símbolo na lapela!

A luta não é por uma vitória. É por um ajuste de contas. Impossível e idiota. Direi eu!

Compreenda-se José Régio, formado na “torre da sabedoria”, e o seu “Cântico Negro”.

“Vem por aqui”…

… Não sei por onde vou/Não sei para onde vou/Sei que não vou por aí!

 

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